Capitulo 9
Bella's POV
Acordei na manhã seguinte com o barulho da chuva. Uma chuva pesada, que resolveu cair de uma vez naquela manhã de sábado. Aos poucos, o vento e as gotas pesadas me fizeram voltar à realidade. Abri os olhos, tentando adaptá-los à claridade que as sete horas da manhã traziam, conforme informado pelo despertador posicionado em cima do criado mudo diretamente ao meu lado.
Permiti a mim mesma não me mexer, travando uma batalha épica contra minhas pálpebras. Aos poucos, recobrei a consciência, o que me fez notar as dores em meu corpo enquanto tentava virar de barriga para cima na cama.
- Merda...
Não consegui ouvir minha voz, que saiu em um sussurro. Optei por permanecer de bruços por algum tempo, já que ficar imóvel parecia ser a única ação que eu conseguia desempenhar sem sentir dor.
Foquei-me no barulho agradável que a chuva fazia do lado de fora, sem querer raciocinar ainda, e me vi embalada por aquele som. Podia jurar que indícios de um sonho começavam a se formar em minha imaginação, quando fui assustada por um trovão, não muito forte, mas que ainda assim foi o suficiente para fazer com que eu abrisse meus olhos outra vez.
- Meeerda...
- Hhhmmppf...
O susto fez com que eu me virasse na cama mais rápido do que desejava. Senti, novamente, as dores em meu corpo se manifestando sem piedade, mas não foi o suficiente para que eu desviasse minha atenção do homem que, também de bruços, se mexia timidamente ao meu lado, ainda de olhos fechados.
Os cabelos de Edward estavam, ainda que eu achasse impossível, mais desalinhados do que o normal. Seu rosto estava quase enfiado no travesseiro macio, e um lençol cobria apenas a área de seu corpo que não devia ser vista, a mais linda.
Continuei fitando-o, sem saber o que fazer, quando flashes da noite anterior vieram à minha memória.
Edward pagou para ficar comigo durante o resto daquela noite.
Nós fizemos sexo até as 04:00h da manhã.
E então, nós apagamos na minha cama.
- Ah, merda...
Eu imaginava que ele fosse ficar irritado em acordar na cama de uma prostituta, mas isso era inevitável. Ele despertaria a qualquer momento, então me veria ao seu lado, lembraria do que aconteceu e sairia da Casa de Tanya o mais rápido que pudesse.
Depois de alguns minutos pensando, cheguei a conclusão que talvez fosse melhor acordá-lo de uma vez e fazê-lo ir o quanto antes.
Na verdade, eu faria isso imediatamente se não estivesse, agora, admirando-o praticamente de boca aberta, como uma completa imbecil.
Não havia como negar: Edward era absurdamente lindo. Era uma beleza quase imoral, quase sobrenatural. Mas tudo nele conseguia ser tão perfeito, tão deslumbrante, que eu começava a me perguntar se aquela beleza era ao menos possível.
Como se pudesse ler meus pensamentos, ele sorriu. Um sorriso tão simples e tão devastador que me fez perder um pouco do fôlego, já instável pela situação. Devia ser um sonho bom, ou minimamente agradável, para fazê-lo sorrir daquela forma tão doce, tãoapaixonante...
Sem tirar os olhos dele, me peguei sorrindo de volta, pelo simples fato de vê-lo sorrir, e desejei íntima e profundamente, sem nem saber porquê, que eu estivesse de alguma forma naquele sonho.
A chuva começou a cair com ainda mais força, por hora me libertando de meus devaneios. Com dificuldade, me levantei da cama e rumei para o banheiro, fechando a porta com cuidado ao passar por ela. Lavei o rosto e penteei meu cabelo com os dedos, sem sequer olhar para o espelho, deixando um bom banho para depois. Depois que eu tivesse Edward fora do meu quarto.
Passei meu creme, lembrando das dores que sentia, e vesti meu robe ao entrar novamente no quarto. Ele não havia se mexido, o que poderia significar que estivesse dormindo profundamente.
Relutei em acordá-lo, sem saber se era porque não queria tirá-lo daquela paz que o cercava em seus sonhos, ou porque a presença dele ali fazia com que eu me sentisse leve.
- Edward... - Sussurrei, dando um tapinha leve em seu ombro. Ele não respondeu.
Repeti o tapa algumas vezes, mas ele parecia profundamente adormecido.
Em um ato extremamente ousado, permiti aos meus dedos entrarem naquele cabelo desalinhado e fofo, fazendo ondas e movimentos suaves. Mais uma vez, meu fôlego ficou instável. Depois de alguns minutos fazendo isso, ele se moveu, o que me pegou de surpresa e fez com que eu retirasse rapidamente minhas mãos do local, investindo novamente nos tapinhas no ombro.
- Edward...
- Hmmmmmmmm...
- Você tem que ir.
- Hm.
- Me ouviu?
- Uhm-hm.
Acreditando ter terminado a conversa, puxou o lençol para se cobrir completamente, se aconchegando mais ao travesseiro embaixo de sua cabeça.
Aquilo era uma coisa nova que entraria para minha lista de coisas nas quais eu era péssima em fazer: Acordar alguém, graciosamente.
Vamos tentar de novo.
- Edward...
- Hmmmm?
- É sábado. E você está no meu quarto.
- Uhm-hm...
- Você está me ouv...
- Meu Deus, mulher, me deixa dormir!
Fui pega de surpresa pela rouquidão de sua voz. Ele ainda mantinha os olhos fechados.
- Você não está em casa. - Falei, tentando manter minha voz baixa, como se estivesse falando com um doente.
- Eu sei onde estou. Estou no seu quarto, na sua cama, tentando dormir. Mas você não deixa. É sábado, são 7:15h da manhã... Pelo amor de Deus...
- Mas... Você está na minha cama...
- Então me deixa dormir.
E dizendo isso, se aconchegou mais nos lençóis, como se tivesse dado o argumento que encerraria a questão.
Eu nunca imaginei que alguém quisesse ficar na minha cama como se isso fosse algo comum. Grande parte dos homens tinha certo nojo, e permanecia nela pelo menor tempo possível. E ironicamente, Edward parecia ser diferente de todos os outros homens em praticamente todos os aspectos.
- Bom... - comecei, mais em um sussurro do que propriamente palavras - ...eu vou deitar também, então...
Se ele tivesse alguma objeção a isso, teria falado. Mas ele permaneceu mudo. Imóvel.
Ótimo.
Levantei da cama, buscando na gaveta uma camiseta branca e uma calcinha. Vesti as peças de roupa e voltei para o lado dele, ainda um pouco receosa com a sua reação quando desse conta de que nós estaríamos na mesma cama.
Não adianta xingar depois... Eu tentei te avisar.
Tentando afastar minhas inseguranças, deitei no colchão com cuidado, virando de lado, com as costas para ele.
Eu não queria olhá-lo. Estranhamente, olhá-lo fazia com que eu ficasse feliz. E isso eramuito estranho. Vê-lo ali, ao meu lado, como se nada mais importasse, era simples, era bom. E a cada minuto que passava, ficava melhor, porque parecia não haver complicações, ou limitações. Ele estava ali, e isso era tudo.
A respiração tranqüila dele, minha própria respiração hesitante e a chuva do lado de fora eram os únicos sons, os sons que davam a melodia àquele momento de paz. E era tão bom...
Exatamente por ser tão bom, eu não queria encará-lo. Porque eu sabia que quanto mais eu me amarrasse à presença dele ao meu lado, em um sono tranqüilo, mais difícil seria de aceitar a dor em não tê-lo ali mais tarde.
Eu sabia que doeria.
E saber disso me deixou com medo.
Subitamente, senti seus braços me envolverem, o corpo dele formando uma concha com o meu.
Fiquei imóvel, em pânico, em êxtase.
- Hmmmm você... passou o creme, né?
Putamerda putamerda putamerda.
- Sim...
- Esse cheiro é muito bom.
E dizendo isso, enfiou o rosto entre meus cabelos e meu pescoço, inspirando profundamente na minha pele.
Não respondi, mantendo meus olhos arregalados e tentando fazer com que meu coração não saísse pela boca. Eu não movia um único músculo, com medo de que ele se afastasse.
Depois de alguns minutos, fechei os olhos e saboreei o momento.
Os braços dele em volta de mim.
Os dedos dele na minha barriga.
A respiração dele no meu pescoço.
A perna esquerda dele entre as minhas.
Ele.
Eu não queria dormir. Queria aproveitar cada segundo daquele abraço, daquele ato. Era o máximo de carinho que eu recebi em toda a minha vida como prostituta. Aquilo nem parecia ser real, de tão bom.
Mas tudo ali me embalava. O clima, os sons, o ar. Os lençóis, a pele dele, o calor da pele dele...
E então, mesmo relutante, não consegui vencer o sono que, mais uma vez, fez com que eu relaxasse e esquecesse de tudo.
...
Fui arrancada de meus sonhos pelo toque insistente de meu celular, jogado em algum canto daquele quarto.
Levantei-me assustada, sequer notando as dores daquela manhã, quando Edward resolveu desfazer o abraço de urso que mantinha ao redor do meu corpo, e fui à procura do objeto escandaloso, tateando entre roupas e móveis, procurando dentro de bolsas, gavetas e mochilas. Minha visão, ainda turva pelo sono, tornava a tarefa extremamente desafiadora, mas finalmente o celular parou de tocar.
Fiquei um pouco mais calma, começando a procurar direito dessa vez. Achei-o em cima de uma pilha de livros coberta por roupas dobradas, esquecidas no canto mais escuro do quarto. Abri e visualizei uma chamada não atendida de Angela.
- Mas que diabos?
Por que ela simplesmente não havia batido na porta e me pedido para abri-la, como sempre faz quando quer falar comigo?
Virei-me, ainda com os olhos no objeto em minhas mãos, e só então pude me lembrar de Edward, ainda deitado em minha cama, me fitando com uma cara estranha. Se era curiosidade, revolta ou só sono, eu não saberia dizer.
Fitei-o por algum tempo, sustentando seu olhar, até que ele cansou desse jogo e se levantou, rumo ao banheiro. No meio do caminho, pegou do chão sua box preta, batendo a porta atrás de si.
Ele caminhava de um jeito imponente. Eu sempre notei isso, mas sentia que a cada dia que passava, aquele homem exalava mais masculinidade e poder do que antes. Era impressionante como um simples mover de pernas tornava-o imediatamente pomposo e intimidante.
Suspirei e dois segundos depois o celular, ainda em minha mão, me alertou com uma nova mensagem recebida. Olhei para o visor e apertei “Visualizar”, logo me deparando com uma mensagem de Angela:
Me diga que Edward Cullen não está no seu quarto.
Sorri lendo aquela pequena frase, imaginando Angela mordendo-se de ansiedade pela minha resposta, enquanto todas as outras meninas roíam as unhas de expectativa também.
Era mesmo impressionante como quase nada passava desapercebido naquela casa.
Apertei o botão de “responder”, já com minha frase formulada, mas parei logo em seguida. Será que eu devia falar que ele estava aqui? Talvez ele não quisesse ser notado, e tentasse sair pelo fundos, evitando fofocas que com certeza viriam.
Mas então lembrei que se tratava de Edward, e mesmo que ele se teletransportasse, as pessoas saberiam que ele esteve ali. Seja pelo perfume natural de sua pele, ou pela aura de poder que ele emanava sobre todas as mulheres daquela casa, e provavelmente do universo.
Sim, está. Por favor, sejam discretas. - Terminei de digitar e enviei a mensagem, desligando meu celular logo em seguida. Foi o tempo de escutar, claramente, risinhos excitados no andar de baixo.
Notei pela primeira vez as notas de dinheiro jogadas no chão, e imediatamente me lembrei da noite passada. Eu estava extremamente grata, aos deuses ou ao destino, o que fosse, pelo fato de Edward ter ficado comigo o resto da noite anterior. Ele havia sido um cavalheiro, me deixando escolher o que fazer ontem. Isso ficou bastante claro, e eu sabia que se quisesse dormir, ele não teria objeções.
Mas ele era o único dentre centenas de clientes que realmente se importava um pouco comigo, ou assim parecia. Ele era mais gentil e mais educado do que todos os outros homens, e eu sabia que aquela noite não seria diferente. Talvez isso tenha sido uma parte do motivo pelo qual tomei a decisão em dar a ele o que ele queria. A outra parte ainda estava obscura para mim, e eu não queria pensar muito no motivo de não ter tido tanta aversão a ele. Não queria pensar porque eu sabia que meus pensamentos tenderiam a ir por caminhos um tanto quando perigosos, possivelmente abalando minha sanidade mental.
Afastando esses pensamentos, recolhi do chão o bolo de notas, alinhando-as na palma da mão, dobrando-as e colocando-as de qualquer jeito sobre o móvel onde se encontravam o resto das notas que um dia pertenceram a carteira dele.
A porta do banheiro foi aberta. Edward saiu, notando minha presença imediatamente ao seu lado, mas mesmo assim não me encarou.
- Como eu não tinha escova de dentes, usei seu anti-séptico bucal. Espero que não tenha problema.
- Não.
Pegou distraído suas calças de cima de uma cadeira, tirando a carteira do bolso. Como se tivesse lembrado de algo com um estalo, veio em minha direção, desviando de última hora para pegar as notas em cima do móvel atrás de mim e contá-las.
Esperei ele acabar a matemática com os braços cruzados na frente do peito. Quando acabou, não disse uma palavra. Ao invés disso, foi de encontro à sua carteira novamente, abrindo-a e tirando de lá um cheque.
- Você tem uma caneta? - Ele perguntou, olhando em volta.
- Por quê?
- O dinheiro não paga suas horas.
Dizendo isso, correu para o livro em cima da escrivaninha e tirou, de dentro, uma caneta.
- Você acabou de desmarcar o ponto onde eu tinha parado a minha leitura.
- Já ouviu falar em marca-páginas? Vou te arranjar alguns.
Edward manteve sua cabeça baixa, preenchendo o cheque, e eu me senti estranhamente contrariada com aquela situação. Quando acabou, ele veio novamente até mim e deixou o cheque junto às notas. Em nenhum momento ele cruzou seus olhos com os meus.
- Qual é o problema? - Perguntei, enfim.
- Problema nenhum. - Respondeu, terminando de se vestir.
- Por que você não olha pra mim?
Ele parou de abotoar sua camisa, e me fitou.
- Odeio te ver assim.
- Assim como? Acabando de acordar? Me dê alguns minutos, eu tomo um banho e fico apresentável.
- Você está toda... marcada.
Ah. Isso. Merda.
- Seus hematomas ficam menos evidentes de noite.
- Bem, tudo fica mais claro de dia, né? - Falei, debochando.
- Estou vendo. - Pontuou, meio triste.
Ele continuava me fitando, correndo os olhos do meu rosto passando por meus braços e seguindo para minhas pernas.
Fui até um dos criados mudos, pegando a bolsa de maquiagem que Angela havia me emprestado.
- Com licença. Estarei normal em quinze minutos.
E dizendo isso, fechei a porta do banheiro atrás de mim.
...
Quando saí, fiquei surpresa ao constatar que ele ainda estava no quarto, sentado na ponta da cama, enquanto lia algum capítulo de Orgulho e Preconceito.
Edward tirou os olhos das páginas, me encarando. Lançou-me uma olhada pouco discreta de cima a baixo, sorrindo.
- Você parece melhor.
- Eu me sinto melhor. E maquiagem realmente é a melhor amiga das mulheres.
Ele continuou me encarando por mais algum tempo, ainda sorrindo, e então voltou-se ao livro.
- Jane Austen é muito romântica.
- Sim. - Falei sem emoção, enquanto procurava uma calça ou alguma peça de roupa qualquer para cobrir minha calcinha. Só encontrei um short jeans, vestindo-o rapidamente.
- Você é romântica?
Olhei para ele imediatamente, e vi que ele já me encarava.
Não entendia o porquê da pergunta. Mesmo que eu fosse, o que isso importava para ele? Bom, talvez fosse só uma curiosidade, mas de qualquer forma, nenhum homem era curioso em relação aos meus gostos ou à minha personalidade... Ou aos meus sentimentos.
- Não. Não posso me dar a esse luxo.
- Todo mundo pode ser romântico.
- Eu não ganho nada sonhando com um príncipe encantado. Pelo contrário, só tenho a perder.
- Ninguém tem nada a perder com um sonho.
Suspirei.
- Quando você percebe que um sonho é inalcançável, então você tem muito a perder.
Ele continuava me olhando, calado. Por fim, falou.
- Não subestime o poder dos contos de fadas.
- Prometo não subestimar assim que minha vida se transformar em um. Mas até lá, permito-me ser amargurada com a vida e não acreditar no amor.
- Você não acredita? Nunca se apaixonou?
Eu queria responder imediatamente, mas alguma coisa na minha cabeça martelava uma dúvida ridícula, que eu não queria sequer tentar entender. Depois de algum tempo, respondi.
- Não. Nunca.
- Uau. - Ele voltou seu olhar para o livro, agora fechado, apreciando a capa.
- Você já?
Ele continuou fitando o desenho em suas mãos.
- Já.
- Bom, dada a atual situação, não acredito que tenha sido um conto de fadas também.
Temia ter sido rude em excesso, mas ele soltou um riso amargurado, debochado, ainda não olhando para mim.
- Não, não foi.
E então, seu rosto ficou triste como eu jamais havia visto, e isso fez com que eu sentisse uma súbita tristeza por ele. Eu sequer sabia do que ele falava, mas gostaria que o que quer que fosse, não tivesse acontecido.
- Um dia você me conta essa história.
Falei antes que pudesse me segurar, e as palavras já tinham saído. Eu sei que não tinha o direito de me intrometer em um assunto que parecia tão íntimo e doloroso para ele, mas eu queria ouvi-lo e tentar consolá-lo de alguma maneira. O problema era que eu não planejava mostrar isso a ele, e aquela frase deveria ter sido mantida dentro da minha boca.
Ele me olhou, com curiosidade.
- Se você quiser, é claro. - Corrigi, tropeçando nas palavras e sentindo corar da cabeça aos pés.
Ele sorriu, um sorriso gentil.
- Vai ser bom conversar.
Sorri de volta, agradencendo em silêncio por Edward compartilhar algo comigo além de sexo sem compromisso.
Ele se desprendeu primeiro da prisão que nossos olhares formavam um com o outro, sacudindo um pouco a cabeça e se levantando.
- Então... Vamos descer?
- Claro... Claro.
Calçei o primeiro par de sandálias que encontrei, indo em direção à porta. Olhei em volta, constatando que o corredor estava deserto. Então, saí do quarto, seguida por Edward.
Desci as escadas em silêncio, chegando no andar de baixo rapidamente. Novamente, olhei em volta, buscando por alguém, mas não havia nenhuma garota à vista.
- Bom... Por qual porta você quer sair?
Ele me olhou, confuso.
- Eu... Bem, eu pensei que pudesse comer alguma coisa antes de ir embora.
- Você quer tomar café da manhã? Aqui?
- Ahn, eu posso comer qualquer coisa na rua...
- Não! É que eu pensei que você quisesse ir... Desculpe.
- É que eu estou mesmo morrendo de fome. Mas se for atrapalhar, eu poss...
- Não vai. Vem, por aqui.
Sem nem pensar, peguei sua mão e puxei-o para a cozinha, e esse simples ato me fez corar outra vez. Estava tão dispersa que não notei as conversas que vinham de lá, e sem nem pensar nisso, abri a porta, me deparando com várias garotas sentadas na grande mesa central, enquanto tagarelavam sobre qualquer coisa sem importância.
Estaquei, ainda segurando a mão de Edward, enquanto o grupo olhava-nos com interesse. Angela tinha a boca um pouco aberta, e eu não consegui pensar em nada para dizer. Depois de alguns segundos, cheguei à conclusão de que talvez fosse melhor não estar tocando nele naquele momento. Soltei sua mão, como se ela queimasse, e cruzei os braços no peito. Edward falou primeiro.
- Bom dia, meninas.
Elas responderam em uníssono. As que conseguiam formular uma resposta, pelo menos.
- Bom dia, Edward.
- Desculpem invadir assim o espaço de vocês, mas eu estou morrendo de fome, sabem? - E dizendo isso, fez um beicinho irritantemente adorável.
Revirei os olhos.
- Ahhh, eu preparo algo pra você! Vem cá! - Disse Vanessa, um pouco mais animada do que o normal.
Enquanto eu sentava à mesa me servindo de suco de laranja, Angela me lançava olhares cheios de significado. Eu dei de ombros, notando que ela era a única mulher no recinto que prestava atenção em mim ao invés de Edward.
Ele se sentou na cadeira imediatamente à minha frente, rindo feito bobo do poder que exercia sobre aquelas mulheres.
- Ridículo. - Sussurrei para ele, o que fez com que ele alargasse ainda mais o sorriso.
- Dormiu bem, Edward? - Angela perguntou de repente, e eu engasguei com o suco, tossindo feito louca. Não era do feitio dela ser irônica, o que me assustou. Jéssica, sentada ao meu lado, deu tapinhas leves nas minhas costas, ficando ciente de minha presença pela primeira vez.
- Ah, sim. A cama da Bella é muito confortável.
- Bella? - Algumas meninas falaram juntas, enquanto outras se entreolharam. Vanessa quase deixou cair os ovos que trazia nas mãos, e Jéssica parou de tentar me fazer voltar a respirar.
- Não é assim que a chamam?
- Bom... É assim que nós a chamamos. - Rosalie disse.
- Eu pedi permissão a ela pra isso, então também posso chamá-la assim. - E piscou para elas.
Eu queria enfiar a cabeça na cesta de pães à minha frente, mas imaginei que fosse chamar muita atenção, então fiquei ali, olhando com ódio para Edward e sua indiscrição, sentindo o rosto queimando de vergonha.
- Ah, então se ela está bem com isso, tudo bem. - Disse Angela, tentando dar um fim àquele assunto.
- Eu - vou - matar - você. - Movi meus lábios formando palavras sem som para ele, enquanto ele ria da minha cara. As meninas já riam novamente, olhando para Edward e voltando a lançar olhares entre si. Graças a Deus, ninguém olhava para mim, a não ser ele.
- Sua omelete. - Vanessa disse, colocando um prato na frente dele, e sentando-se na cadeira vazia ao seu lado, apoiando seu queixo sobre uma mão, como uma adolescente vendo um filme do Brad Pitt.
- Parece muito bom. Obrigado. - E dizendo isso, piscou para ela. Que mania irritante ele tinha de piscar para as mulheres!
Ela riu, satisfeita, e eu comecei a ficar puta.
- Com licença. - Arrastei a cadeira para trás e me levantei.
- Vai aonde? - Ele perguntou.
- Ler. Você já conhece o caminho até a porta. E mesmo que não conhecesse, tenho certeza que Vanessa ficaria mais do que contente em lhe acompanhar.
Ela sequer olhou para mim quando mencionei seu nome, tamanho era seu interesse nele.
- Ah, ok. Bom, até mais então.
- Até.
E dizendo isso, saí da cozinha, tentando mais do que tudo não pensar que a cena que acabara de fazer na frente de todas aquelas mulheres e de Edward não tinha nada, absolutamente nada a ver com ciúmes.
...
O resto daquela manhã e o início da tarde foram tomados por Angela e Jéssica fazendo perguntas sobre os detalhes mais sórdidos do que aconteceu entre mim e Edward, na noite anterior.
- Pelo amor de Deus, até parece que vocês não sabem de tudo. Vocês fazem a mesma coisa todos os dias. - Falei, desanimada.
- Mas nenhum cliente ficou na minha cama até o dia seguinte. - Angela falou.
- Principalmente um cliente como Edward Cullen. - Jéssica completou.
- Ele devia estar cansado.
- Qual é, Bella. Um homem não dorme na cama de uma puta, a não ser que esteja bastante confortável.
- Jéssica, se ele estava confortável ou não, eu não sei. Mas não deve ter sido a primeira vez que ele faz isso.
- Bom, - começou Angela - pelo menos aqui ele nunca fez isso. Com nenhuma de nós.
Senti-me subitamente de bom humor, o que tentei não relacionar ao fato de saber agora que estava, de certo modo, em um patamar diferente das outras dezenas de mulheres daquela casa.
Mesmo animada, tentei mudar de assunto. Precisava ficar sozinha.
- Bem, eu vou dar uma volta. É sábado, nada de clientes pra me azucrinarem. Vou aproveitar a paisagem.
- Mas ainda está chovendo.
- Ótimo. Menos pessoas na rua pra ficarem olhando pra mim.
Às cinco, eu já saía da Casa de Tanya com minha bolsa-mochila no ombro que guardava meu livro e um dicionário, vestindo um casaco vermelho desbotado, calças jeans skinny e um par de tênis velhos.
Eu não tinha guarda-chuva, mas não precisava. Estava choviscando, e as pequenas e finas gotas não me incomodavam. Ao contrário, eram bastante agradáveis. Constatei que as nuvens estavam pesadas e os trovões estavam cada vez mais freqüentes, então corri, para não pegar o dilúvio que eu sabia que viria.
Puxei o capuz do casaco para cobrir a cabeça e caminhei até o ponto de ônibus. Queria ir ao parque do outro lado do bairro, respirar novos ares.
Assim que cheguei, corri para uma das muitas mesas redondas de madeira cobertas por telhas vermelhas. Como não ventava, consegui me proteger da chuva ali.
Era um lugar calmo, e obviamente, estava vazio. Pelo pouco das ruas e casas que consegui analisar, pude constatar que era um bairro de pessoas, no mínimo, bastante ricas.
Tirei meu livro da bolsa, juntamente com o dicionário e uma caneta, colocando tudo em cima da mesa e sentando em um dos quatro tocos de madeira que serviam como banco. Graças a Edward, tive que procurar por algum tempo a página na qual havia parado a leitura, até encontrá-la. Sentindo o cheiro e ouvindo o barulho da chuva, consegui relaxar.
Não sei por quanto tempo fiquei ali. Tudo parecia tão calmo e fácil. O lugar era lindo, a grama era bem aparada, de um verde vivo. As gotas, agora mais grossas e em maior quantidade, caíam pesadamente na superfície do enorme lago que ficava no centro do parque. Aquela atmosfera me contagiava, e, naquele momento, aquele lugar era o melhor lugar do mundo para se estar.
Vi, através da espessa cortina de chuva, alguém correndo, se abrigando em uma das mesas cobertas que ficava do outro lado do parque. Sorri, sem nenhum motivo. O homem, como pude constatar depois de alguma análise, retirava seu casaco de couro e balançava seus cabelos molhados como um cachorro que acaba de sair do banho.
Voltei meu olhar para meu livro, retomando a leitura. Poucos minutos depois, meu celular emitiu um som fraco e morimbundo, me avisando que a bateria tinha se esgotado.
- Ótimo. Nada como paz. - Falei, em voz alta.
- Eu concordo...
Pulei de susto ao ouvir a voz falando imediatamente atrás de mim, num tom suficientemente grave para não ser encoberto pelo barulho forte da chuva.
Era uma voz masculina. Uma voz bonita, incisiva e poderosa. Aquele tipo de voz que você imagina que um homem lindo tenha. E pelo fato de ter estado pensando nessa voz de cinco em cinco minutos, quando me dispersava da história de Jane Austen à minha frente, não precisava nem me virar para saber quem era o homem que se encontrava a pouco menos de um metro de distância de mim.
Mesmo assim, me virei, encarando aqueles olhos que agora estavam de um dourado fluorescente. Ele estava ensopado da cabeça aos pés, e trazia uma revista enrolada completamente molhada e mole em uma mão e, na outra, seu casaco.
Normalmente, quando era pega de surpresa, eu demorava um pouco para formular uma frase. Nesse, caso, eu acabara de ser pega de surpresa por Edward, o que fazia com que minhas tentativas de falar alguma coisa coerente fossem ainda mais fracassadas. Porque Edward me deslumbrava naturalmente, me pegando de surpresa ou não.
- Você... O que... - Tossi, limpando a garganta. - O que está fazendo aqui?
- Eu é que pergunto. Aqui é um pouco longe de onde você mora.
- Eu queria sair... Ler um pouco... Fugir um pouco...
- Entendi.
Eu ainda não sabia o que ele fazia ali. Não acreditava em coincidências, muito menos em destino.
- O que está fazendo aqui? - Repeti.
- Bom, eu fui até a banca comprar uma revista, e aí o céu desabou em cima da minha cabeça. Então atravessei a rua e vim correndo pra cá. Fiquei em baixo daquela proteção do outro lado do parque, e te vi. Bom, pensei que fosse alguém parecido com você, mas não pude dizer com certeza. Então vim verificar, e aqui estou.
Edward pontuou seu discurso com um sorriso torto contagiante. Eu suspirei.
- Você mora por aqui?
- Moro a dois quarteirões daqui. Consigo ver esse parque inteiro da varanda da minha sala. - E dizendo isso, apontou para um prédio branco espelhado imponente, o mais alto à nossa esquerda, um pouco longe.
- Deixa eu adivinhar: Você mora na cobertura.
- É.
Sorri debochando, abaixando minha cabeça. Então ele era mesmo um homem podre de rico.
- Ei, posso sentar?
- Claro. - Tirei minha bolsa de cima do banco ao meu lado, cedendo-lhe o lugar. Ele aceitou, sentando-se e puxando um assunto aleatório.
- Então... Um sábado chuvoso. Que droga, né?
Manter um papo normal com Edward soava forçado, porque nós não batíamos papo. Nós não nos conhecíamos para isso, e nosso objetivo juntos era bastante diferente de jogar conversa fora. Mesmo assim, eu queria dar uma chance para que esse relacionamento, errado em quase todos os aspectos, pudesse se tornar algo melhor, algo que valesse a pena.
- Eu gosto de chuva. Me traz paz. E o cheiro é muito bom.
Ele sorriu.
- Acho que você é a única pessoa no mundo que prefere um sábado chuvoso a um sábado ensolarado e quente.
- Não creio que seja a única. Você que não deve conhecer muitas pessoas tão sensíveis como eu.
Ele me olhou profundamente, mas eu continuei.
- Quero dizer, é muito fácil gostar de um sábado ensolarado, mas quase ninguém vê a beleza de uma tarde chuvosa. Se as pessoas tentassem ver a real beleza disso aqui... - Olhei em volta, deixando a frase no ar. - Não estou dizendo que não gosto do sol, mas as pessoas parecem se esquecer que, sem a chuva, o tempo bom seria cansativo. A gente tem que mudar de vez em quando, senão tudo fica muito chato.
Olhei-o novamente, e constatei que ele não me olhava simplesmente. Ele estava me analisando. Senti meu rosto corar, conseguindo finalizar meu argumento em um tom de voz mais baixo que antes.
- Mas ainda prefiro a chuva...
- Sabe, acho que agora prefiro a chuva também.
Seu olhar era penetrante, e eu começava e me sentir completamente exposta àquele olhar. Desviei os olhos, voltando a tentar ler o livro à minha frente.
- Ainda aquele livro?
- É. Avancei bastante hoje, já passei da metade.
- Você lê com um dicionário?
- Sim. - Pela milionésima vez, corei. Minha mania de corar na frente dele já estava ficando irritante. - Tem algumas palavras... Sabe, difíceis. Eu não entendo, aí eu procuro no dicionário, e posso continuar lendo.
- Isso mostra uma grande força de vontade sua, sabia? A maioria das pessoas, quando lêem algo que não entendem, simplesmente deixam pra lá. Preferem não entender o trecho de um livro a se mexerem e irem procurar o significado da palavra.
- Bom, eu entendo menos palavras do que a maioria das pessoas.
- Hm... Você... Não estudou?
- Ah, estudei sim. Eu era uma aluna mediana no colégio que estudava. Mas aí eu tive que sair. - Olhei para as mãos.
- Por quê?
Olhei novamente para ele. Sua expressão me encorajava a continuar, e pela primeira vez eu pude ver alguém, além de Angela, genuinamente interessado no que eu tinha a dizer.
- Bom, eu... Eu tinha dez anos, quando meu pai morreu. Levou dois tiros em um assalto. Minha mãe era dona de casa, nunca trabalhou, e nos sustentávamos com dinheiro do meu pai. Ele era policial.
Quando ele morreu, minha mãe teve que procurar um emprego. Como ela não sabia fazer muita coisa, arranjou um emprego de garçonete.
Pagava pouco e exigia muitas horas do dia dela. Então, tive que sair da escola pra tomar conta da casa. Essas coisas.
- Eu lamento.
Pude ver que ele realmente lamentava.
- E sua mãe...
- Morreu, há pouco mais de 3 anos. Drogas, álcool, depressão. Essas coisas. Tudo por causa de um infeliz que ela conheceu...
Suspirei. Falar dela e de meu pai doía. Eu podia sentir com clareza isso agora, porque era a primeira vez que realmente conversava sobre isso com alguém.
- Ela era linda, sabe? Minha mãe. Tinha olhos claros e muito vivos, antes de conhecer aquele filho da puta. E mesmo quando estava triste, você podia ver que algo nela iluminava a sua vida. Era como se dentro dela existisse algum tipo de sol. E ela era diferente das outras pessoas. Ela era bonita, bonita por dentro e por fora.
- Deve haver uma ou duas coisas dela em você.
Encarei-o, e sem nem saber porquê, sorri. Ele retribuiu o sorriso.
- O sorriso dela era tão bonito quanto o seu?
- Era muito mais bonito. - Falei, envergonhada. - Ela não devia ter morrido assim tão jovem. Ainda havia muitas pessoas pra ela iluminar.
Enxuguei uma lágrima que escorreu por meu rosto, me pegando de surpresa.
- Talvez esse seja o seu papel agora.
Dei um riso triste e abafado.
- Não acho que possa desempenhar esse papel. Não sou a metade da mulher que ela foi.
- Você me ilumina.
Ele disse isso calmamente, e continuou me olhando como se tivesse acabado de me dar bom dia.
- Há algo em você. Eu notei isso no primeiro dia que te vi. Você é muito diferente de grande parte das mulheres, Bella.
- Não sou. É impressão sua. Ninguém é diferente de ninguém.
- É sim. Todo mundo é diferente. Existem pessoas ordinárias, e existem pessoas especiais. É uma pena que você não veja isso.
- No meu mundo, existem apenas pessoas. Elas só se aproximam de você porque têm algum interesse. Ninguém está lá pura e simplesmente pra te ajudar. Você precisa dar algo em troca.
- Talvez o que elas peçam em troca não seja muito. Talvez seja só uma amizade.
- Edward... - Falei, minha voz embargada com uma tristeza que não estava nos meus planos para aquela tarde - Ninguém nunca me pediu só amizade.
Ele ficou calado. Eu vi em sua expressão que ele não tinha nada que pudesse ser dito para me fazer sentir melhor. Mas isso não era novidade.
- Você odeia essa vida, não é? - Perguntou, enfim.
- Você não faz idéia.
Pela primeira vez, ele desviou o olhar, fitando agora suas mãos molhadas.
- As outras garotas... Elas não ligam. Mas, pra você, é um suplício.
Permaneci em silêncio, fitando minhas próprias mãos.
- Você ganhou minha simpatia de graça, sabe? Eu acho você uma pessoa bacana, e conforme o tempo passa, me sinto gostando mais de você.
Olhei para ele um pouco eufórica.
- Eu não quero fazer parte disso. Não sabia que era assim.
- Eu... - Comecei, mas não sabia o que dizer.
- Não sei de todos os pecados que você cometeu na vida, mas posso ver que você é uma pessoa boa. E pessoas boas não merecem sofrer. Pelo menos eu gosto de pensar que eunão estou ajudando a tornar a vida delas mais miserável.
Ele me olhou novamente.
- Não vou fazer mais isso com você. Não vou mais te usar pra tapar os buracos da minha própria vida. Não é justo, e sinto muito ter feito isso até agora.
Ele devia se desculpar. Sim, ele fazia parte da mediocridade da minha vida, e ajudava a torná-la mais miserável. Ele era um cliente, uma pessoa que fazia com que eu me lembrasse, a cada dia, por que eu odiava a minha vida.
E ao mesmo tempo, ele era a pessoa que me fazia sentir, a cada dia que passava, um pouco menos infeliz. Uma pessoa que se destacava, que se diferenciava das outras simplesmente por ser do jeito que era, mas também porque se importava comigo. Se importavade verdade.
Senti meu coração derretendo aos poucos, enquanto o fitava ali, molhado, parado à minha frente. Meus sentimentos pareciam lutar dentro de mim, travando uma briga que nem eu mesma poderia apartar. Uma mistura de raiva, desejo e loucura me confundiam, e eu não sabia ao certo que dizer, mas sabia que precisava falar alguma coisa.
Ainda assim, podia sentir meu peito quase explodindo. Ele era pequeno para manter tantas coisas que lutavam entre si pela liderança lá dentro. Senti uma onda repentina de sinceridade se apoderando de mim, e antes que pudesse sair correndo deixando-o com meu silêncio, fechei os olhos e simplesmente falei.
- Você é a melhor coisa que aconteceu comigo durante todo esse tempo. Você é a única pessoa que se preocupa com o fato de eu estar machucada ou não. Você foi a única pessoa que me perguntou sobre a minha vida. E eu sinto muito te dizer isso, sinto muito não conseguir calar a boca agora, mas eu não quero que você vá embora.
Outra lágrima escorreu pelo meu rosto, mas eu não me importei.
- Não se assuste comigo, eu só... Eu só gosto de ter você por perto. Eu me sinto segura. Eu sei que você não quer esse tipo de responsabilidade, e você não precisa ter. Mas só a sua presença já me passa isso. Você não precisa fazer muito mais do que estar por perto.
Ele me fitava, um pouco assustado, mas agora não havia mais como voltar atrás.
Ele engoliu, depois de algum tempo em silêncio. Passou as mãos nos cabelos, sem saber muito o que fazer. Por fim, falou.
- É por perto que você me quer?
- Sim. - Falei, sem pestanejar.
Ele sorriu. Aquele sorriso torto.
- Então é por perto que eu vou estar.
Sorri de volta, secando meu rosto.
- Você fica muito mais bonita sorrindo.
- Vou tentar sorrir mais vezes, então. - Falei, em tom de brincadeira.
- Vou cobrar isso de você.
A chuva agora era uma fina cortina de gotas muito pequenas, tão leves que demoravam a cair. No céu, um sol tímido iluminava fragilmente as nuvens, e a combinação disso pintou um arco-íris tão grande que ocupava toda a parte visível do céu cinzento.
Edward olhou para mim, apontando para o colorido acima de nós.
- Viu só? - Falou, calmamente - Quando o tempo bom e o tempo ruim se misturam em um só, o resultado é mais bonito do que se espera.
...
Alguns minutos depois, o sol já se pusera, deixando o ambiente gradativamente mais escuro. A chuva havia cessado, e algumas pessoas já se arriscavam a passear no parque, antes deserto. A conversa entre mim e Edward tomou um rumo mais agradável, onde falávamos de coisas mais banais. Infelizmente, ele me perguntava coisas demais, e eu não tinha a oportunidade de saber um pouco da vida dele também.
- É melhor ir embora, antes que pegue uma pneumonia. Suas roupas estão molhadas a tarde inteira.
- É verdade. - Disse isso olhando para sua camisa, ainda colada em seu corpo por causa da água, torneando cada músculo definido ali. Obviamente ele não reparou nesse detalhe, mas eu vinha reparando a tarde inteira.
- Você vai ficar? - Perguntou.
De repente notei que se ele estava indo embora, então eu não tinha mais nada para fazer ali. Minha leitura já tinha sido esquecida há muito tempo, os livros já estavam fechados e guardados dentro da bolsa.
- Não, vou também. Já está escurecendo, de qualquer forma.
- Então vamos. Eu te acompanho até o ponto de ônibus.
O caminho até lá foi silencioso. Felizmente, não foi um silêncio desagradável, mas sim aquele tipo de silêncio que acontece quando as duas pessoas sabem que não precisam preencher aquele espaço com palavras idiotas e conversas descartáveis. Era um silêncio natural, onde a presença do outro era a única coisa a ser compartilhada e apreciada.
O ônibus chegou, e eu me vi triste pela despedida. Ainda assim, era preciso, então entrei no ônibus de uma vez, olhando para trás e acenando timidamente para ele, que retribuiu, ainda me olhando enquanto o veículo acelerava.
A viagem pareceu rápida demais para meus devaneios, e quando cheguei à Casa de Tanya, queria apenas ficar sozinha. Neguei o jantar quando me chamaram para descer à cozinha, porque de fato não sentia fome. Entreguei o dinheiro, ainda em cima do móvel, para Tanya, e me tranquei em meu quarto.
Tomei um bom banho e me deitei na cama. A partir daí, nada fiz senão pensar.
Não sei a que horas o sono veio, e também não sei quanto tempo fiquei divagando sozinha no escuro do quarto. A chuva voltou a bater com força no telhado, e meus pensamentos teimavam em voar para aquela tarde de sábado, o que deveria ter sido só mais uma tarde de sábado qualquer.
E embora eu não estivesse ciente de muita coisa, embora eu não soubesse o que exatamente me deixava tão perdida ultimamente, eu tinha um palpite. Um palpite que me deixava eufórica e, ao mesmo tempo, em pânico.
Lembro do último pensamento que tive, antes de mergulhar na inconsciência outra vez. Se era um pedido ou uma oração, eu não saberia dizer. Mas de qualquer forma, meus sentimentos aos poucos começavam a tomar uma forma definida, e eu tentava desesperadamente não ver as coisas como elas pareciam ser. Como elas seriam, a partir de agora.
Por favor, POR FAVOR, que eu não esteja me apaixonando por Edward Cullen.

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