Capítulo 13
Edward’s
POV
No dia seguinte,
cheguei na Casa por volta das 21h, quando uma música agradável e sensual tocava
não muito alto, proporcionando o
ambiente caloroso que eu procurava sempre que ia lá. Passei por alguns casais
que já aproveitavam a noite, sem o menor pudor, enquanto se atracavam nos
cantos, finalmente chegando no bar e pedindo minha já habitual dose de whisky.
Olhei em volta
procurando um rosto conhecido, e depois de algum tempo, quando não pude achá-lo, relaxei um pouco.
Isabella não
deveria estar naquele ambiente, porque se estivesse, os homens presentes
achariam que ela estava livre. E ela não estava, porque eu providenciei isso. Muito bem
providenciado.
- Olá, querido.
Virei-me e encarei
Tanya, com um sorriso um pouco forçado.
- Olá.
- Isabella está no
quarto dela, se você a está procurando.
- Imaginei que ela
estivesse lá – Respondi, dando um último gole em minha bebida e agradecendo a
menina do bar que veio retirar o copo.
- Edward – Tanya
segurou levemente meu braço, me olhando com mais significado do que o normal. O
sorriso forçado não estava mais em seu rosto. – Posso
te dar um conselho?
- Sim? – Falei, um
pouco surpreso com a intensidade de sua atitude.
- Tome cuidado.
Fitei-a por algum
tempo, sem entender muito bem o que aquilo significava. Como se ela pudesse ler
meus pensamentos, completou.
- Não a torne muito especial.
Ainda não entendia muito bem o motivo
daquilo, mas mesmo assim senti a necessidade de me defender.
- Não estou tornando-a especial.
- Não seja bobo. É óbvio que está.
- Ela é uma boa
amiga.
Tanya me observou,
sem falar nada. Depois de segundos, voltando do que parecia uma análise interna
sobre mim, ela tornou a falar, se afastando logo em seguida.
- É um conselho,
meu caro.
Fiquei imóvel,
vendo-a caminhar para longe de mim, enquanto voltava a sorrir para alguns dos
homens que brincavam com ela.
Fiquei pensando em
que ocasião
manter uma amizade com uma das garotas da Casa prejudicaria alguém. Não seria o caso para mim, já que eu
realmente gostava da companhia dela. Não seria o caso de Isabella, porque, até onde eu sabia, ela
também gostava de minha companhia, se eu fosse tomar suas próprias palavras
como indicação
disso. Também não seria
o caso de Tanya, porque nada do que se passava entre nós atrapalharia seus
negócios.
Caminhei para as
escadas que davam para o corredor dos quartos das meninas, enquanto ainda
tentava entender o “conselho” que Tanya acabara de me dar. Não sei o quanto aquilo tudo afetava
a ela, mas eu esperava que não afetasse o suficiente para que ela se sentisse no direito
de interferir no relacionamento que Isabella e eu tínhamos agora. Se ela
tentasse fazer isso, nós teríamos problemas.
Cheguei à porta de
seu quarto e bati, esperando por uma resposta. Uma voz abafada saiu de lá de
dentro, me pedindo para que entrasse, então o fiz.
Isabella estava
sentada na cama, com as costas apoiadas na cabeceira, segurando um livro agora
fechado que eu identifiquei como sendo o mesmo livro que ela estava lendo há
algum tempo. Vestia um short vermelho confortável e um moleton preto, tão grande nela que parecia pertencer
a alguém três vezes maior.
Ela me encarou com
um sorriso largo e verdadeiro, tão lindo que eu tive que retribuí-lo.
- Olá – Comecei,
fechando a porta atrás de mim e caminhando até ela. – Desculpa interromper sua
leitura.
- Ah, tudo bem. Eu
estou lendo o dia inteiro, é bom parar de vez em quando.
Ela colocou o livro
em cima do criado mudo ao seu lado, voltando para mim ainda com aquele sorriso.
Não consegui desprender os olhos
dela, ficando em silêncio por algum tempo enquanto admirava a luz que sua
aparente alegria conseguia emanar.
- Está contente? –
Consegui dizer, saindo um pouco do transe e indo me sentar ao seu lado na cama
de casal, depois de tirar os sapatos.
- Ah, você não sabe como é bom não ter que descer.
Sorri por saber que
ela estava mesmo feliz, e me senti bem em saber que fora meu ato que havia feito com que ela
pudesse dar aquele sorriso.
- Caramba, você
fica mesmo mais bonita sorrindo – Eu disse, enquanto tentava afrouxar e tirar
minha gravata sem desfazer o nó.
- Bom, eu tenho
motivos pra ficar contente. Quer que eu te ajude?
Sem esperar pela
minha resposta, ela já me ajudava a afrouxar mais a gravata, e meu instinto
achou melhor agir imediatamente.
- Não senhora. Eu sei bem o que as suas
mãos e essa sua carinha de inocente são capazes de fazer – Falei em tom
de brincadeira, enquanto afastava suas mãos de mim.
- Ei, só estou
sendo gentil! – Ela falou, fingindo estar magoada.
- Seja gentil sem
encostar em mim, sua provocadorazinha.
Isabella fez uma
careta e cruzou os braços no peito, ainda sorrindo.
- Então, o que pretende fazer comigo essa
noite, bonitão?
- Podemos fazer uma
infinidade de coisas. Por exemplo, estudar a Revolução Russa.
Ela riu, uma
pequena gargalhada, e o som levemente rouco e fofo fez com que eu sorrisse de
novo. Eu tinha que me lembrar de deixá-la alegre com mais freqüência, porque
sua alegria era adorável.
- Você é algum tipo
de historiador?
- Não. Sou diretor de uma empresa de
publicidade.
- Bacana. – Ela
disse, sem muito entusiasmo.
- É bem chato, pra
dizer a verdade. Tudo que eu faço é seguir as ordens da minha secretária.
Ela pareceu
confusa.
- Você é o chefe e
segue as ordens da secretária?
- Ela entende da
coisa muito melhor que eu. Eu só estou lá pra assinar papéis. Meu nome tem
peso, já que eu sou o filho do dono das Empresas de Publicidade Cullen.
Isabella me
encarava com os olhos atentos e a boca levemente aberta em um “o” quase
perfeito, parecendo um peixinho fora d’água. Me segurei para não rir de sua expressão engraçada.
- É por isso que
você tem dinheiro.
- É.
- Deve ser bom ser
rico. – Ela falou com um suspiro, tirando os olhos de mim e voltando-se para
frente. – Ser importante, morar bem, ter tudo o que quiser…
- Eu pareço ter tudo o que quero pra você? –
Perguntei um pouco mais seco do que gostaria, e o tom de minha voz fez com que
ela olhasse para mim outra vez, um pouco espantada.
- Ahm… Não.
- Pois é. É porque
eu não tenho.
- O que te falta?
Ela perguntou, e eu pude ver em seus olhos que ela estava realmente interessada na resposta.
Ela perguntou, e eu pude ver em seus olhos que ela estava realmente interessada na resposta.
- Não sei. Um sopro de vida, talvez –
Falei, rindo baixo sem motivo nenhum.
Isabella continuou
me encarando, como se não entendesse.
- Minha vida social
é uma desgraça. Eu não tenho amigos, não tenho pessoas próximas a mim.
Isso às vezes faz falta. Eu queria alguém pra conversar, alguém que não fosse Victoria. Mesmo porque ela
já está de saco cheio das minhas lamentações.
- Ah… E quem é
Victoria?
- Minha secretária.
E psicóloga nas horas vagas. Eu devo muito a ela. Muito do pouco da minha
sanidade restante. Na verdade, acho que ela é a única pessoa do meio em que eu
convivo de quem eu não tenho medo.
- Ela parece legal.
- Ela é um… anjo. –
Respondi, me dando conta de que talvez fosse isso mesmo que Victoria era. Um
anjo. Não era
uma hipótese absurda, visto que ela estava sempre me ajudando, sempre me dando
os conselhos mais sábios e sempre se preocupando comigo quando os outros não davam a mínima importância para mim. Talvez ela fosse o meu anjo da guarda, no final das
contas.
Pela minha visão periférica, pude notar que
Isabella me encarava com curiosidade, ainda de braços cruzados.
- Foi ela que fez
aquilo em você?
- Aquilo o quê?
- Aquelas marcas no
seu pescoço.
- Victoria? – Não consegui me conter e soltei uma
gargalhada alta e divertida, o que pareceu incomodá-la.
- Qual é a graça? Não vai me responder?
- Não, não foi ela. Victoria é só minha amiga. Mesmo.
- Seus olhos
brilharam quando você falou dela. – Ela retrucou, ainda um pouco chateada.
- Quando eu digo
que devo muito a ela, você não sabe o quanto.
Ficamos nos
encarando por algum tempo, e seu olhar dizia para que eu prosseguisse.
Pensei se era mesmo
apropriado contar um pouco da minha vida para ela. Depois de algum tempo,
cheguei à conclusão de
que não seria tão difícil me abrir com aquela
garota quando era com os outros.
- Quando eu tinha
21 anos, estava me preparando pra ser o diretor de uma das filiais das empresas
do meu pai. Eu tinha dinheiro, amigos, namorada. Tudo parecia ir muito bem na
minha vida. E eu devia mesmo ter desconfiado que tudo estava indo até bem
demais.
Eu era apaixonado
por Lauren, muito apaixonado.
Eu não me importava com as coisas que
ela me pedia, ou como às vezes parecia não estar feliz comigo. Na verdade, acho que estava cego de
amores por ela, então tudo
o que eu mais queria era ficar do lado dela pelo resto da vida. Mimei-a e a
exaltei de todas as formas possíveis. Comprei carro, jóias, o diabo para aquela
mulher. Eu simplesmente confiava nela, e nunca me passou pela cabeça que um dia ela pudesse fazer
alguma coisa que me magoasse.
Resumindo, eu era
um imbecil. Então foi
bem feito que eu tenha me decepcionado. No dia em que eu ia pedi-la em
casamento, descobri que ela havia ido embora com meu melhor amigo. Mais do que
isso, descobri por outras pessoas que os dois tinham um caso antigo, o que
provavelmente durou todo o tempo em que nós estivemos juntos.
Não preciso dizer que me senti um
palhaço. Qualquer um que fosse um pouco mais
confiante e menos idiota que eu iria atrás dos dois e talvez cometesse uma
loucura por orgulho. Mas eu resolvi me trancar dentro de casa e ignorar o
mundo.
Me afastei de todos
que conhecia, porque se ninguém tinha sido capaz de me dizer toda a sujeira que
acontecia debaixo do meu nariz, então me senti no direito de pensar que fui traído por eles
também. Perdi meu melhor amigo, minha futura esposa, e a vontade de tentar
outra vez ter uma chance em algum relacionamento.
Na verdade, nem foi
difícil me tornar uma pessoa sozinha. Depois desse pesadelo, comecei a beber
demais e a tratar os outros como lixo. Obviamente ninguém estava disposto a me
agüentar no auge das minhas crises existenciais, com uma exceção. Essa exceção era Victoria.
Então ela ficou do meu lado durante
muito tempo, cuidando de mim. Me tratou bem, e eu sequer merecia isso. Ela me
aconselhou a tomar juízo, procurou programas de reabilitação e me obrigou a voltar para o
trabalho, porque segundo ela, eu deveria ocupar minha cabeça para esquecer os meus problemas.
Por isso, até hoje,
eu devo demais a ela.
Isabella e eu
ficamos em silêncio por alguns segundos, enquanto ela me encarava novamente com
a cara de peixinho dourado. Eu também olhava para ela, surpreso em notar a
forma seca e sem emoção que escolhi para contar aquela história. Era bom saber
que aquilo não
despertava em mim a tristeza e o desespero que já foi capaz de despertar um
dia, e poder contar aquilo para alguém além de Victoria fazia com que eu
realmente me sentisse algumas toneladas mais leve.
- Desculpe… – Ela
começou, fechando os olhos e sacudindo a
cabeça devagar – Deixe ver se eu
entendi: Essa mulher tinha você aos pés dela, tinha uma vida inteira pela
frente ao seu lado, e ela resolveu simplesmente ir embora com um amigo seu?
- Meu melhor amigo. Sim.
- Ok. Acho que essa
é a mulher mais estúpida de quem eu já ouvi falar. – Ela disse, com os olhos um
pouco arregalados, parecendo realmente surpresa ou incrédula.
- Ela não era estúpida, era uma vadia.
Parei
imediatamente, notando a gafe que acabara de cometer. Eu estava ao lado de uma
garota de programa, e talvez insultar uma mulher daquela forma não fosse exatamente apropriado.
- Me desculp…
- Tudo bem. Não me ofendeu.
Eu não falei outra vez, o que nos fez
mergulhar em um silêncio constrangedor. Isabella olhava atentamente para as mãos, enquanto pensava em alguma
coisa com uma expressão séria e um pouco triste, e imediatamente tive vontade de
fazer algo muito ridículo para que pudesse voltar a ver aquele sorriso em seu
rosto outra vez.
- Espero que você
tenha superado isso. – Ela falou, em uma voz fraca. – Aposto que um dia ela vai
se arrepender, enquanto você vai estar aproveitando sua felicidade. Ela não te merecia, então foi melhor ter te deixado.
- Bom, eu não senti isso na época. – Retruquei,
brincando. – Doeu bastante.
Ela ficou em
silêncio durante algum tempo, mas depois o rompeu.
- Todos temos
nossos dias ruins.
- É. Todos temos os
piores dias das nossas vidas. – Concordei.
- É. Acho que sim.
– Ela sorriu, mas um sorriso triste.
- Qual foi o pior
dia da sua vida?
- Você sabe qual
foi. Eu já te contei.
- Qual foi o
segundo pior?
Eu nem sabia por
que estava insistindo naquele assunto. Talvez eu fosse mais idiota do que
achasse ser.
- Bom, meus dias não são muito agradáveis. Nenhum deles. Mas recentemente, teve um
dia excepcionalmente ruim.
- Qual? –
Encorajei-a a prosseguir.
Ela pareceu
ponderar por muito tempo se devia falar ou não. Por fim, resolveu contar.
- Alguns dias antes
de você me ver naquele estado.
Congelei, porque mesmo
com essa pouca informação, eu sabia qual era o dia em questão. Lembrei de seu estado frágil,
dos machucados por toda a extensão do seu corpo, e um ódio esquecido dentro de mim surgiu
como fogo, com a expectativa de finalmente saber o que, ou como eu imaginava, quem havia feito isso a ela.
- O que aconteceu
naquele dia? – Senti os músculos do meu pescoço contraídos de raiva, e lembrei de que tinha que me
controlar se eu quisesse ouvir a história completa.
- Só me acontece
uma coisa, Edward. Clientes. – Ela falou sem me encarar, e a raiva que quase
explodia pela minha boca me fez ignorar o prazer de ouvir o som do meu nome na
voz dela.
Dei tempo para que
Isabella falasse o que quisesse e quando quisesse. Era extremamente difícil,
mas eu não tinha
o direito de interrompê-la, apesar da vontade que eu tinha de sacudi-la pelos
ombros e exigir o nome do filho da puta que tinha feito aquilo. Como não queria assustá-la, respirei fundo
e esperei.
- Ele foi um
cavalheiro no início, até onde isso era possível. Mas acho que era um daqueles
homens que não
aceitam “não” como
resposta. Então, como
ele queria uma coisa e eu me neguei a fazer… Bom, ele perdeu a paciência.
Ela soltou um
risinho forçado,
ainda sem olhar para mim.
Reuni toda a força que existia dentro de mim para
falar em um tom minimamente controlado. Era óbvio que eu já sabia a resposta,
mas como não
estava raciocinando muito bem, perguntei assim mesmo.
- Ele bateu em
você?
Diga que ele não bateu em você. Diga que não…
- Um pouco.
Senti meu estômago afundar em um baque surdo e
doloroso, e tudo o que eu mais queria era não acreditar no que ela dizia. Fiquei calado ao som da
confirmação dos
meus medos, enquanto digeria o fato de que alguém havia batido nela.
Alguém havia batido nela. Algum covarde maldito,
filho da puta, havia batido nela.
E não havia sido “um pouco”, porque eu
vi o estado em que ela se encontrava dois dias depois do que aconteceu, o que
me levava a acreditar que ela esteve muito pior antes.
Ainda remoendo a
dor que eu sentia, notei que havia algo pior naquela história. Eu podia sentir
minha cabeça
esquentando ao ponto de ferver, enquanto lutava para não pensar no que podia ter
acontecido depois de baterem
nela. Naquele momento, eu daria tudo para que Isabella afastasse aquele
pensamento de mim, mas o único jeito de fazer isso poder acontecer seria
perguntar a ela. E eu tinha medo da resposta.
- Bella… Você
expulsou ele do seu quarto depois disso, não é?
Ela ficou em
silêncio, olhando para a parede à frente, enquanto entrelaçava e desfazia os nós nos dedos,
tentando achar uma resposta à minha pergunta.
- NÃO É? – Eu queria falar de uma forma
educada e controlada, mas o silêncio dela fez com que um desespero se
apoderasse de mim, então eu gritei.
Ela olhou para mim
de uma forma calma e triste, com olhos que poderiam pertencer a uma criança inocente e indefesa.
Uma criança.
Uma porra de uma
criança violentada.
- Eu tentei. Mas
ele era forte.
Estaquei.
Ela foi estuprada.
Ela foi estuprada.
Aquela frase ficava
se repetindo na minha cabeça como um letreiro luminoso vermelho, piscando
incessantemente, me cegando um pouco mais a cada piscada.
Ela foi estuprada.
- Por que… – Fiquei
surpreso em ouvir minha própria voz, um pouco trêmula, enquanto tentava
raciocinar – Por que você… não gritou?
- Ele me amordaçou.
Eu não podia acreditar naquilo, e tudo
ficava pior a cada detalhe, e então eu não queria ouvir mais nada.
Olhei em volta e
notei que eu já estava de pé, andando pelo quarto, e me perguntei há quanto
tempo eu estivera fazendo aquilo.
- Qual o nome dele?
– Perguntei secamente.
- James. Acho. –
Ela me olhou, um pouco receosa.
- Como ele era?
- Por quê?
Ela estava
desconfiada, e eu não podia
culpá-la. Talvez fosse culpa da minha incapacidade de esconder o que devia ser
agora uma expressão de
maníaco assassino. Tentei não deixar claro que alguns pensamentos psicopatas lampejavam
em minha mente, como andar com uma faca e arrancar os globos oculares daquele
infeliz, ou então
amarrá-lo, banhá-lo com gasolina e atear fogo, enquanto apreciava seu maldito
corpo queimando e o assistia morrer lenta e dolorosamente.
- Eu só quero
saber.
- Eu não lembro muito bem. – Ela mentiu.
- Por que está
preocupada com ele? Ele te… forçou! Forçou a… Pelo amor de Deus!
- Não estou preocupada com ninguém! Só
acho que é mais fácil deixar pra lá! Já passou.
Olhei-a incrédulo.
- Como você pode
dizer isso?
- Eu estou feliz
que isso tenha acontecido uma só vez! Qualquer puta faz isso, lembra?
Eu lembrava.
Aquelas eram minhas próprias palavras.
- Não interessa o que qualquer…
qualquer uma faz. Você tem suas condições, e se um homem quiser ficar com você, tem que
respeitá-las!
- Homens não me respeitam, Edward. Você deveria saber disso.
- Eu te respeito. E se todos os
homens te conhecessem como eu conheço, veriam que você merece esse respeito. Você é muito mais
digna do que muitas mulheres que eu já conheci, por isso não insinue que você não o merece. Eu não sei quanto às outras garotas
daqui, e também não quero
saber, mas sei que respeito você e todo filho da puta que toca em você devia fazer
o mesmo!
Ok. Minha mania de
ser extremamente sincero na companhia dela estava ficando irritante e
constrangedora. Eu deveria manter a boca fechada, mas eu não conseguia. Simplesmente tinha que
falar tudo a ela, tinha que dizer a ela tudo de bom que ela tinha e que não conseguia ver em si mesma. Eu
tinha que mostrá-la que ela não era qualquer uma.
Ela não era qualquer uma.
- Obrigada…
Fui pego de
surpresa pelas lágrimas dela, que resolveram descer em uma repentina enxurrada,
fazendo com que eu não soubesse o que fazer. Eu sempre fui péssimo em confortar
pessoas, simplesmente porque eu sempre fui muito insensível para conseguir
falar alguma coisa que servisse de consolo.
Mas Isabella
precisava de mim, talvez mais do que alguém um dia já precisou. Eu sabia que
confiar a mim aquele segredo não havia sido uma tarefa fácil para ela, então era minha obrigação fazê-la se sentir um pouco
melhor, mesmo que eu não soubesse como.
Ignorando a raiva
pulsante que gritava dentro de mim, fui me sentar novamente ao seu lado na
cama, tentando parecer suficientemente calmo e controlado, o que eu não estava. Mas ela realmente
precisava de mim, então eu não poderia me dar ao luxo de alimentar aquele sentimento de
ódio e sair pela cidade caçando o filho da puta como o animal que ele era.
Isso ficaria para
depois.
- Vem cá. – Tentei
falar com uma voz suave, e falhei miseravelmente. Por sorte, ela não pareceu identificar a hostilidade
que emanava de mim, então menos de um segundo depois Isabella já estava no meu
colo, embrulhada como uma bola em meu peito e agarrada em mim como um coala.
Sua cabeça
repousou no meu ombro e eu pude sentir sua respiração quente na pele do meu pescoço.
Desejei que ela
parasse de chorar, porque sentir suas lágrimas molhando minha camisa só
aumentava a raiva dentro de mim e aflorava meu instinto assassino. Abracei-a
com força,
tentando fazer com que os soluços dela diminuíssem, mas não adiantou.
- Tudo bem… –
Comecei, tentando convencer mais a mim do que a ela – Está tudo bem. Não chora, pelo amor de Deus.
Ver uma mulher
chorar sempre foi meu ponto fraco. Eu simplesmente não aguentava ver mulher nenhuma
chorar, e ver Isabella chorando
conseguia ser umas dez vezes pior. Naquele momento, ela parecia mais indefesa e
mais frágil do que realmente era, e pensar no fato de que alguém pudesse fazer
qualquer coisa de ruim àquela garota, de que alguém pudesse ser tão covarde a ponto de tomá-la a força, era revoltante.
Eu mato esse filho da puta.
- Obrigada por ser
tão legal comigo… – Ela começou, tentando controlar os soluços.
- Não me agradeça por isso. – Falei secamente,
enquanto planejava mentalmente o assassinato.
- Não faça nenhuma besteira, por favor.
- Tudo bem. –
Menti, ignorando a imagem que surgia na minha mente em que eu esmigalhava um
tijolo na cara do maldito.
- Promete?
- Não. – Se ainda havia justiça nessa merda de mundo, aquele
desgraçado tinha que pagar pelo que fez.
- Edward… – Ela
falou com uma voz muito baixa, como se fosse recomeçar a chorar em questão de segundos.
Merda.
- Não vou procurá-lo. Prometo. Mas se
eu esbarrar com ele, não me peça pra ser racional.
Ela fungou, ainda
agarrada a mim.
Embora eu ainda
fosse um total desastre em consolar pessoas, eu poderia dizer que consolar
Isabella, em particular, parecia uma tarefa um pouco mais fácil. Não que eu tivesse dado conselhos
sábios ou falado coisas importantes – porque eu não tinha feito porra nenhuma – mas a situação era muito menos constrangedora e
desagradável.
Talvez porque eu a
conhecesse. Talvez porque, depois de muito tempo, ela tenha sido a única pessoa
que eu permiti se aproximar de mim, e por isso, fez com que eu estivesse
nutrindo um sentimento por ela. Um sentimento que eu via crescer a cada dia, a
cada minuto.
Ficamos em silêncio
por muito tempo, e depois de alguns minutos pude sentir sua respiração ficando gradativamente mais
profunda, então
constatei que ela havia dormido. A noite parecia esfriar rapidamente, então tentei trazer, sem fazer
movimentos muito bruscos, a manta que ficava dobrada aos pés da cama.
Desdobrei-a, ainda com cuidado para não acordá-la, e enrolei nós dois em um tipo de casulo, o que
fez com que ela se apertasse ainda mais contra meu corpo e suspirasse
tranqüilamente.
Me permiti
desfrutar de um estranho prazer em estar com ela de uma forma tão íntima e carinhosa, e não pensar sobre o motivo daquilo, ou
o que poderia significar. Ao invés disso, deixei-me levar pela paz que
transbordava de nosso casulo, esquecendo os pensamentos de ódio e vingança que eu nutria durante toda aquela
noite, e então
adormeci.
Quando acordei,
demorei um pouco para entender onde estava, até que senti o corpo de Isabella
colado ao meu. Olhei um pouco em volta e me dei conta de que agora nós
estávamos em posições
completamente diferentes.
Ela dormia
profundamente de bruços na cama, e eu estava em cima dela, também de bruços, com o rosto enfiado em seus
cabelos, enquanto mantinha um braço possessivo em volta de sua cintura. Me perguntei se ela
poderia estar morta por asfixia pelo peso do meu corpo, mas como notei que ela
ainda respirava profundamente, não tive tempo de me desesperar.
Levantei a cabeça e vi que o relógio no criado mudo
ao seu lado marcava perto de 02:30h, o que queria dizer que minha hora de ter
ido embora já havia passado há muito tempo.
Com cuidado, saí de
cima dela lentamente, verificando se ela podia se acostumar à falta do meu peso
ali, e então
finalmente fiquei de pé, um pouco cambaleante. Calcei meus sapatos e vesti o
paletó, penteando às cegas meus cabelos com os dedos, que deviam estar
amassados pelo cochilo. Fui até ela, ajeitei o cobertor em volta de seu corpo,
abaixando ao seu lado e ficando bem próximo ao seu rosto, e encostei as costas
da mão muito levemente na ponta de seu
nariz para verificar se ela sentia frio.
De repente, eu não queria mais ir embora.
Era difícil vê-la
dormir daquele jeito, tão tranqüilamente, e não sentir uma força quase tão forte quanto a gravidade me puxando para ela. Para mais
perto dela. Cada vez mais perto.
Suspirei, me
enchendo daquele sentimento de superproteção que ultimamente vinha me tomando quando eu ficava algum
tempo ao lado dela. Infelizmente, eu tinha que ir, porque dali a algumas horas
eu já teria que estar de pé, fingindo dirigir uma empresa.
Contrariado, dei um
beijo simples mas demorado em sua testa, então me levantei e saí de seu quarto. Segui pelo corredor que
estava vazio, o que agradeci em silêncio, e saí pela porta dos fundos, indo de
encontro ao meu carro que me esperava estacionado a alguns metros dali.
Enquanto dirigia,
tentei não
pensar no que eu havia ouvido hoje. Tentei não trazer à tona, outra vez, aquele ódio profundo que senti
quando soube que alguém ousou bater nela e violentá-la. E tentei não pensar por que eu havia decidido
protegê-la e tentar mantê-la sempre feliz com todas as forças do meu ser.
Eu ainda não entendia o que Tanya havia me
dito no início daquela noite, ou talvez eu fingisse não entender. Talvez não quisesse pensar no assunto, mas o
que quer que fosse, uma coisa estava bem clara: Ela estava certa.
Eu tinha tornado
Isabella muito especial.

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