Oregon não era Washington. E muito
menos Portland era Forks. Como eu não tinha olhos castanhos e sim verdes. Mas
como tudo era fantasia, Portland virou Forks e meus olhos viraram castanhos com
a ajuda miraculosa de lentes de contato. Era como ter alguém enfiando o dedo no
seu olho constantemente. Piscava feito uma tonta, quando o vi pela segunda vez.
O cabelo parecia pior do que antes e ele estava atrasado. Naquele dia teríamos
que fazer teste de roupa, cabelo, maquiagem, estas coisas que nos fazem passar
de simples mortais a vampiros ultra sexys. Não que eu fosse me transformar numa
vampira sexy. Não, eu continuaria a pobre mortal comum.
- Oi – ele sorriu.
- Oi.
Ele aproximou-se o bastante para
examinar meus olhos, com olhar indagador.
- Cadê seus olhos verdes?
- Bella tem olhos castanhos.
- É mesmo.
- Você não leu o livro?
- Claro que li, pra seu
conhecimento estou aqui a mais de um mês.
- Fazendo o que?
- Conhecendo a área. Mas é ruim
ficar sozinho. Acho que já conheço todos os bares da região.
Eu levantei a sobrancelha.
- Conhecer a região você quer dizer
todos os bares?
Ele gargalhou.
- Algo assim.
- Algo assim – eu repeti. Piscando
mais uma vez. Teria que me acostumar àquelas lentes idiotas.
- O que vai fazer hoje a noite?
Eu virei-me para ele. Piscando, mas
desta vez de surpresa e não por causa do material gelatinoso dentro do meu
olho.
- Como? – quase berrei.
- Pensei em lermos o script.
Ensaiar. – ele continuou.
- Oh… Isto.
E o que eu esperava? Que ele fosse
me convidar pra sair? Não que eu almejasse sair com ele, entendam bem. Eu tinha
namorado. Mas o que uma garota pode pensar quando um garoto pergunta “ o que
vai fazer hoje a noite?”, era questão de retórica.
- Tudo bem pra mim. – Me vi
respondendo ainda meio aparvalhada.
- Na minha casa ou na sua?
Ok, desta vez ele estava rindo.
Claramente fazendo piadinha de duplo sentido. Como se eu precisasse daquilo pra
ficar vermelha. Eu dei uma risadinha “ok, entendi a piada, engraçadinho” e
desviei o rosto para o espelho, para ver o que a cabeleireira estava fazendo.
- Na minha – respondi no meu tom
mais casual – ou onde quiser. Não me importo.
- Pode ser na sua. A minha esta
desabitável mesmo.
Eu o fitei.
- Tem certeza que não atrapalharei
a sua via cúcios pelos bares?
Ele sorriu. Tinha sempre que viver
sorrindo?
- Eu já falei. Eu conheço todos da
região. Talvez te leve a algum um dia destes.
Eu o fitei:
- Eu tenho 17!
- E daí?
- E daí que você pode ser preso por
corrupção de menores.
- Eu não seria um ator sem ao menos
uma foto de cadeia.
- Tudo é piada pra você?
- Nem tudo.
Ele virou-se voltando a cantarolar,
acendeu um cigarro e eu desviei o olhar, piscando. Malditas lentes. Eu já tinha
lido o script. Mas agora era diferente.
Nos sentamos na mesa de jantar cada
um com um calhamaço de folhas de papel a frente. Ele fumava um cigarro. Já
tinha percebido que ele fumava feito uma chaminé. Mas quem não fumava hoje em
dia? Ele tamborilou os dedos na mesa, enquanto lia. E tentei ler também, mas
estava ridiculamente distraída. Me mexi na cadeira várias vezes, tentando
encontrar uma posição. Ele levantou a cabeça e me fitou interrogativamente.
- Algum problema? Parece ansiosa.
- Nada. Apenas distraída.
Oh, Deus, ele deveria me achar uma
amadora. Rob estendeu a mão com o cigarro.
- Não, obrigada – recusei.
Ele riu.
- Esqueci que posso ser preso por
isto.
Eu ri também.
- Algo assim.
- Quer fazer outra coisa? Acho que
isto não vai render hoje.
- Fazer o que? – tentei não
imprimir desconfiança na minha voz. Desconfiança do que?
Ele deu de ombros.
- Podemos dar uma volta. Pegue seu
casaco.
- Mas…
- Está frio, Kristen.
- Achei que íamos ensaiar.
- Podemos ensaiar amanhã.
- Ok.
Eu fui buscar meu casaco e quando
passei em frente a um espelho aproveitei para passar as mãos pelos meus cabelos
despenteados. Não é por que Rob parecia nem ligar para a desordem dos seus que
eu tinha que segui-lo. Com certeza as pessoas o achariam charmoso por isto. Mas
se eu andasse assim na rua iam me chamar de maluca. A noite estava fria e minha
blusa era ridiculamente fina para aquela temperatura.
- Achei que fosse por uma blusa.
- Não estou com frio – respondi com
pouco caso – aonde vamos? – perguntei reparando que ele agora vestia uma toca
estranha no cabelo.
- Conhecer a cidade.
Eu revirei os olhos enquanto ele chamava
um táxi
- Há esta hora? Não acha que esta
um pouco tarde não?
Ele sorriu, abrindo a porta do
carro para que eu entrasse.
- Tarde é relativo.
Eu resolvi não discutir.
- Ok, deveria imaginar que conhecer
a cidade pra você queria dizer conhecer um bar.
Eu olhei o ambiente underground a
minha volta. Porque aquilo não me surpreendia? Uma garçonete aproximou-se. Na
luz difusa do lugar, certamente ela não nos reconhecia. Não que fossemos, assim
tão famosos. Mas as pessoas às vezes me reconhecia. E Pattinson fizera Harry
Potter. Era alguma coisa. Definitivamente. Mas eu fiquei bastante satisfeita,
dada as circunstâncias, de sair incólume. Ele pediu duas bebidas
- Ok, talvez eles peçam minha
identidade e aí seremos presos – eu completei.
- Você ficaria bem numa foto de
delegacia.
Ele juntou os dedos, como se
esquadrinhasse meu rosto numa câmera e eu fiz uma careta
- Perfeito.
- É sério, Pattinson, estamos bem
longe de Hollywood. Ninguém sabe quem você é aqui.
- Por enquanto…
Ele riu e tirou a toca preta, os cabelos
cor de areia surgindo revoltos e eu tive uma estranha vontade de erguer as mãos
e passar os dedos pelos fios revoltos. Mas não tive tempo de fazer algo tão sem
noção, pois ele colocou a toca na minha cabeça.
- Pronto, está disfarçada.
Eu fiz uma careta. Deveria estar
ridícula vestindo aquilo.
- Talvez fique melhor agora na tal
foto de delegacia. – ironizei.
- Pode ser.
A garçonete aproximou-se colocando
as bebidas sobre a mesa. Ela fitou Rob por um momento com cenho franzido.
- Você não é…?
- Não.
Ela sacudiu a cabeça, vermelha:
- Ok.
A moça se afastou e eu ri.
- Isto foi maldoso.
- Achei que não quisesse ser
reconhecida.
- Estamos falando de você.
Ele passou a mão pelos cabelos, um
risinho no canto dos lábios, me olhando nos olhos. E em minha mente me veio uma
passagem da saga que eu devorara nas últimas semanas, não sei bem agora de qual
livro:
“Olhar dentro dos olhos dele sempre
faziam eu me sentir extraordinária, como se os meus ossos estivessem como
esponja. Eu também ficava com a cabeça meio leve, mas isso podia ser porque eu
esquecia de respirar”.
Foi exatamente assim que me senti
naquele momento. Eu esqueci de respirar. E olha que nem tinha ingerido um gole
da tal bebida na minha frente. Lembro que quando li este trecho tive vontade de
rir, tentando imaginar alguém que sentia os ossos como esponja. Era impossível
pra mim entender. Mas naquele momento eu entendia. Porque os meus ossos estavam
como esponja.
- Mais alguma coisa? – o som da voz
da garçonete que retornara, certamente esperando mais alguma atenção, me tirou
do transe em que me encontrava e eu desviei o olhar. Tentando respirar, antes
que ele percebesse meu desvario momentâneo.
- Não, obrigada – ele falou
sorrindo pra moça. Ela também sorriu, como se tivesse ganho na loteria, antes
de virar-se e se afastar. Pobre mulher. Mais uma deslumbrada. Juro. Eu tive
pena dela.
- Não vai beber? – ele perguntou.
Eu não bebia. Muito. Claro que
vivendo em Hollywood a minha vida toda, eu já tinha ingerido bebidas
alcoólicas. Em algumas festas que freqüentara as vezes tinha até mais que isto
disponível. Mas eu não saía muito. Não era nem um pouco Lindsay Lohan. Na verdade
eu era bem tímida para uma pessoa que estava em frente aos holofotes desde
criança. Mas por algum motivo que fugia a minha compreensão eu tinha vontade de
ser um pouquinho doida esta noite. Só um pouquinho, disse a mim mesma, enquanto
pegava o copo. Não era ruim. E nem era tão forte. Ele riu daquele jeito
brincalhão
- Parece veterana já hein? Todo
este papo de “Rob eu tenho 17 anos” – ele imitou minha voz e eu ri.
- Eu não disse que nunca tinha
bebido.
- Bom… Pelo menos não terei que
carregá-la.
Não. Eu não queria nem pensar numa
possibilidades daquela, mas minha mente, que parecia estar fora do controle
naquela noite, já começou a formar imagens de Rob me carregando… Chega, Kristen
– eu me recriminei. Se continuasse naquele ritmo daqui a pouco estaria pior que
a Bella. Ridículo. Sim, era isto. Passara tempo demais lendo Twilight, e
aquilo já estava me afetando. Estava tão distraída que quase dei um pulo ao
sentir os dedos dele tocando minha testa.
- Por que tão séria? – ele indagou
numa imitação perfeita do coringa de Batman, os dedos tocando o vinculo na
minha testa. Eu afastei a mão dele, com um safanão, mas estava rindo. Certo, eu
já estava rindo a toa e nem estava bêbada. Muito, muito promissor.
- Nada…
Ele ia insistir. Eu vi pela cara
dele. Mas fui salva pela voz no palco que anunciava uma banda de rock.
- Estes caras são legais – Rob
comentou.
- Você conhece?
- Já os vi tacando aqui.
- Você tem uma banda também?
Ele deu de ombros.
- Tenho algo assim, mas não é nada
profissional. Meio que tocamos por bagunça mesmo.
Ok, era muito bonitinho o jeito que
ele ficava pra falar de si mesmo. Algo casual, algo como se não se levasse
muito a sério. Os dedos passando pelos cabelos revoltos, o riso de lado. Eu
podia descansar meu queixo entre as mãos e ficar ouvindo ele falar, só olhando,
por um longo tempo e nunca me cansar. A banda começou a tocar e ele desviou a
atenção para o palco. E eu fiz exatamente isto: descansei o rosto entre as mãos
e fiquei olhando pra ele, enquanto o ouvia acompanhar a música. Como seria ele
tocando? Eu fiquei curiosa de repente.
- O que você toca?- indaguei por
cima do som da música.
- O que?
Ele se inclinou para mais perto
para me ouvir. E de uma forma inesperada, eu me vi levantando a mão e tocando
os fios revoltos de seus cabelos, como se fosse inevitável. Quase como uma
compulsão.
- O que você toca? – repeti mais
alto, os dedos brincando entre os fios. E então eu acordei. O que eu estava
fazendo? Horrorizada, eu puxei a mão rápido, pegando o copo e levando a boca e
evitando olhar pra ele.
- Violão e piano – ele respondeu
casualmente. Eu arrisquei fitá-lo com o canto do olho. Ele parecia nem ter
notado meu ato impensado, continuava com os olhos fixos na banda. Eu procurei
fazer o mesmo desta vez. Prestar atenção na música ajudava a me distrair.
Ajudou. A banda era realmente boa. Eles podiam ter tocado por minutos ou por
horas, eu não sei dizer. Mas lá pelas tantas, eles se despediram do palco. Eu
olhei em volta e percebi que o bar estava quase vazio. Assim como meu copo.Ops.
- Vamos? – Rob perguntou.
- Sim, já deve ser bem tarde – eu
gemi olhando o relógio no meu pulso e constatando que era realmente muito
tarde. E amanhã tinha trabalho duro. Eu levantei, sinceramente com medo de
estar cambaleante. Seria vergonhoso. Não estava acostumada a beber. Mas eu
estava bem. Ótimo. Ter que ser carregada pra casa não seria nada legal, seria
humilhante na verdade. Saímos para a noite escura e eu estremeci de frio.
Droga! Deveria ter trazido uma jaqueta. Mas quando saímos eu não tinha noção
que voltaríamos tão tarde.
- Eu falei que estava frio – ele
falou risonho, tirando a própria blusa.
- Não, não! Não precisa – eu tentei
falar ao ver sua intenção.
- Não quero que morra congelada.
Vamos, vista. Mas eu me recusei terminantemente.
- Eu não vou vestir sua blusa e
você ficar com frio.
- Kristen…
- É sério. Nem adianta insistir.
Ele deu de ombros.
- Você é maluca – falou baixinho
como que para si mesmo e chamou um táxi. Eu entrei no carro rapidinho antes que
congelasse de verdade. Infelizmente, o táxi não tinha aquecimento e eu passei
as mãos pelos braços arrepiados de frio. Deveria ter aceitado a blusa de
Robert… tarde demais. Ouvi um riso baixo ao meu lado e me virei para ele
irritada
- Nem vem com aquela frase “ eu te
disse” por favor! – pedi. Ele riu ainda mais.
- Eu não ia falar isto.
- Sei…
De repente, ele estendeu o braço e
sem que eu tivesse chance de escapar me puxou pra si. E eu me vi encostada
nele, que puxou a jaqueta preta o suficiente para que me cobrisse também.
- Bem melhor assim – ele falou
contra meus cabelos e eu fechei os olhos, Mortificada. Petrificada. Deveria ter
aceitado a blusa quando tivera oportunidade. Antes que… antes que… Como é que
de uma hora pra outra ele fazia aquilo? Sem ao menos me avisar? Ok, para ser
sincera, o frio estava passando, bem rápido até. E meus dentes já não batiam.
Não era o fim do mundo, justifiquei a mim mesma. Estava sendo ridícula. Ele não
fazia nenhum movimento suspeito. Apenas me segurava contra si. Super normal.
Rob apenas fora legal em não deixar que me congelasse por ser teimosa. Então eu
relaxei de encontro a ele. Minha cabeça estava leve. Por causa da bebida?
Certamente. Encostei-a em seu ombro, fechando os olhos, meus braços subiram
como se tivessem vontade própria para descansar em seu peito. Super normal.
Ainda bem que Rob não era Edward, pensei não contendo o riso.
- Do que esta rindo? – ele indagou.
- Se você fosse o Edward, eu
estaria mesmo congelada.
Ele riu também, o peito sacudindo
levemente.
- Que sorte a sua. – ele falou
abafado e eu tive a nítida impressão que os lábios dele estavam em meus
cabelos. Mas neste momento o carro parou e o motorista se virou.
- Chegamos!
Eu me desvencilhei dele, que ainda
continuaria até sua casa, a poucas quadras da minha
- Nós não ensaiamos – eu lembrei de
repente me sentindo culpada. Ele sorriu.
- Teremos outras noites.
- Esta não foi uma noite produtiva.
Definitivamente – eu falei saindo do carro e fechando a porta.
- Depende do ponto de vista– eu
ainda o ouvi antes do carro dar partida.
Eu olhei o carro se afastando
sentindo o frio enregelante, agora que não tinha mais Rob pra me esquentar.

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