Capítulo 14
Edward’s
POV
Eu estava no meio
da sala na Casa de Tanya, que parecia estar mais cheia do que o normal. Não me lembrava como havia ido parado
ali, mas não me
importava com isso. O ambiente estava estranhamente escuro e frio, sem música,
onde só podiam ser ouvidos os sons de gemidos altos e desagradáveis vindos do
andar de cima e de conversas baixas – quase sussurros – ao meu redor, como se
estivessem contando segredos uns aos outros.
Comecei a perceber
que enquanto falavam, todos olhavam de esguelha para mim. Me perguntei o motivo
de ser o assunto que corria por ali, então comecei a me sentir mal.
O bar estava vazio,
sem meninas e sem bebida. Senti falta de uma dose de whisky, e minha boca ficou
seca abruptamente. Sem opções, me convenci de que o melhor seria subir e encontrar
Isabella.
Tão rápido quanto esse pensamento,
Tanya surgiu ao meu lado, segurando com força meu antebraço.
- Ela não está disponível.
- Como assim não está disponível? – Olhei em volta
e pude notar que agora a conversa havia cessado e todos do lugar, clientes e
garotas, nos encaravam.
- Você chegou
tarde. Ela já tem um cliente.
- Não cheguei tarde merda nenhuma! Eu
paguei pela semana dela!
- Ele ofereceu mais
dinheiro, portanto ela é dele por agora.
Olhei incrédulo
para ela, enquanto tramava um jeito de me esquivar de seu aperto – mesmo que
isso resultasse em quebrar o pulso dela – e subir as escadas. Como se pudessem
ler meus pensamentos, alguns homens se moveram de forma a ficar entre mim e a
escada, formando um escudo humano.
- Que merda é essa?
– Falei, já exaltado – Eu paguei primeiro!
- Ela é um objeto
desejado, querido. Entenda…
- Ela é MINHA!
- Ela não está a venda! Se quiser,
alugue-a, mas não a
considere sua! Ela não é, e nunca vai ser!
- Sua filha da…
- Por que você
demorou? – Uma voz interrompeu meu xingamento. A voz que eu conhecia. Que eu
procurava, e que nunca na vida desejei com tanta vontade ouvir.
Ergui os olhos e a
vi. Ela estava com roupas que eu jamais a havia visto usar. Roupas vulgares,
maquiagem pesada e um rosto triste. Embora as cores fortes em seu rosto fossem
gritantes, não
conseguiam tirar a atenção dos vários machucados que ela tinha na boca, em volta dos
olhos e, descendo, por todas as partes do corpo, expostas pela saia
indecentemente curta e pelo top quase transparente.
Uma puta.
Um objeto, com as marcas de todos os aluguéis ao longo do tempo.
- Eu esperei por
você, mas você não veio.
Pensei que você fosse me proteger.
O cenário havia
mudado, e agora existíamos só nós dois, ainda em nossas posições, enquanto todos os outros
coadjuvantes haviam desaparecido. Fui tomado por uma esperança ao ver que podia caminhar até
ela, mas minha alegria durou o tempo necessário para que eu me desse conta de
que não conseguia me mover. Tentei falar
alguma coisa, mas minha voz também não era audível.
Eu estava
impotente, e só podia rezar para que ela pudesse ler meus pensamentos. Mas ela
não podia.
- Você disse que
estaria por perto.
Eu disse… Eu vou estar!
- Você mentiu pra
mim.
Não menti, eu quero estar!
- É sua culpa. Eu
estou assim por sua culpa.
Eu vou cuidar de você… Eu
vou…
- Não volte mais aqui. Não quero mais ver você, não quero mais falar com você. Finja
que não me conhece, que eu nunca existi.
Me desesperei,
ainda preso no mesmo lugar, tentando por tudo quanto era mais sagrado gritar
alguma coisa, qualquer coisa, mas minha voz não me obedecia. Ela não podia me jogar para fora da vida dela daquela maneira! Eu
não podia ir!
Bella! Por favor…
Por favor!
Por favor…
- Edward?
Uma voz aveludada
conhecida chamou meu nome, tirando-me lentamente daquele sonho. Abri os olhos e
vi o rosto de Victoria em frente ao meu, me encarando com curiosidade. Aos
poucos, me dei conta da dor que sentia no pescoço, proveninete da péssima posição em que me encontrava, com a cabeça apoiada nos braços em cima da mesa de meu
escritório.
- Você cochilou.
Levantei a cabeça lentamente, ciente que meus
músculos gritavam em protesto.
- Desculpe. Tive
uma noite péssima.
Lembrei-me da noite
em questão.
Depois de chegar em casa, tomei um banho e me deitei na cama, fazendo toda força que podia para não pensar no que tinha ouvido de
Isabella. Portanto, obviamente foi a única coisa na qual eu pensei durante a
noite toda, o que me impediu de ter um sono normal. Eventualmente o início de
um sonho começava a
nebular minha mente, mas imediatamente era espantado pela lembrança da conversa que tivemos algumas
horas antes, ou pela minha imaginação fértil que teimava em pintar, com os mínimos detalhes, o
que me fora contado.
Como resultado, passei
a noite inteira acordado.
- Você estava
resmungando coisas – Victoria começou, tentando soar sensível.
Fitei-a um pouco
preocupado. Eu não sabia
que murmurava enquanto dormia.
- O que eu disse?
- Um nome.
Ótimo. Eu não precisava perguntar, sabia exatamente
qual era.
- Quem é Bella? –
Ela perguntou, ainda me encarando.
- Ninguém.
- Mentira. Você
parecia preocupado demais pra ela não ser ninguém. – Ela disse com convicção, o que me fez lembrar o motivo
pelo qual ela sempre ganhava todas as discussões que aconteciam entre nós.
- Ok. Ela é uma
amiga. Está com problemas.
Victoria me olhou
com várias perguntas não ditas, mas que eu consegui captar. Era óbvio que coisas
como “Quem diabos é essa mulher” e “Onde diabos você a conheceu” estavam
passando pela cabeça dela,
mas me permiti aproveitar sua santa discrição e ficar em silêncio, já que nada fora me perguntado.
- Certo. – Ela
enfim falou, depois de me analisar um pouco – Vou conhecê-la algum dia?
Essa era uma
pergunta intrigante, porque eu não sabia a resposta. Se Victoria conhecesse Isabella e
descobrisse o tipo de relação que eu mantinha com ela, tudo indicava que eu acabaria
esfolado vivo. Se elas se conhecessem e esse pequeno detalhe se mantivesse em
segredo, eu tinha uma vaga impressão de que elas provavelmente se tornariam grandes amigas.
A parte boa era que
imaginá-las se dando bem me fazia sentir uma estranha e genuína alegria. A
parte ruim era que eu nunca conseguia esconder algo de Victoria por muito
tempo.
- Não sei. – Respondi me levantando, enquanto
massageava o pescoço na
tentativa de diminuir a dor. – Eu não estou legal…
- Eu notei isso. Vá
pra casa, sua aparência está horrível.
- Não tenho reuniões hoje? – Perguntei, um pouco
espantado.
- Tem, mas eu vou
cancelar. Você não está
em condições…
- Não, eu vou.
Victoria me encarou
como se eu tivesse acabado de confessar que gostava de idéias nazistas.
- Eu preciso ocupar
minha cabeça com
alguma coisa. – Tentei explicar antes que ela pensasse em me internar – Vai ser
bom pra mim. Só preciso de um analgésico pro meu pescoço.
Ela continuou a me
encarar com desconfiança, e eu sabia o motivo. Eu nunca havia preferido ir a reuniões e discutir assuntos da empresa a
ir para casa e não fazer
nada. Na verdade, sempre foi um castigo exercer meu papel ali, por isso ela
estava certa de que, qualquer que fosse o que me afligia, era bastante sério.
- Você tem certeza?
– Ela perguntou, um pouco preocupada.
- Tenho. Só preciso
que você vá comigo. Quanto tempo temos antes da primeira reunião?
- Será daqui a
pouco menos de duas horas.
- Ótimo. Então podemos usar esse tempo para você
me explicar do que se trata essa reunião. E, por favor, me explique coisas que eu nunca quis
saber.
A essa altura, eu
já havia me acostumado com a expressão de surpresa de Victoria. Saindo rapidamente de seu
pequeno estado de choque, ela se retirou e voltou segundos depois com um copo
de água e um analgésico. Agradeci, tomando o remédio oferecido, e fui sentar ao
seu lado na poltrona que ficava no lado oposto à minha mesa.
Eu não queria pensar em nada que me
trouxesse dúvidas. Não queria pensar no sonho que tivera, ou de seu significado.
Não queria pensar na intensidade do
desespero que senti quando achei que eu tivesse que sair da vida dela, ou da
tristeza que me dominou ao ouvi-la dizer que não me queria mais por perto. Não queria pensar nela, e em nada que fizesse me lembrar
dela.
Não era pensar em Isabella que me
fazia mal, mas sim não entender o motivo da confusão de sensações em que eu me encontrava todas as vezes que ela aparecia
na minha cabeça. De
fato, pensar nela era bom. Era bom até demais para que fosse considerado
saudável. No entanto, ela tinha um estranho poder de fazer com que eu tivesse
dúvidas de tudo o que eu sentia depois que a conheci.
Como essa era uma
questão que vinha me incomodando mais a
cada dia, e como, ao tentar chegar à uma conclusão, eu falhava miseravelmente, decidi tentar não pensar nela, ou pensar o mínimo
possível. Infelizmente meu objetivo não era alcançado quando não havia outra coisa com que ocupar minha cabeça, então eu precisaria de Victoria nisso.
Eu precisava de
problemas que não
exigissem absolutamente nada do meu lado emocional.
…
O dia ocorreu como
esperado. Compareci a quatro reuniões importantes com Victoria, e pela primeira vez pude tomar
decisões nas quais eu não precisasse que ela interviesse só
porque eu podia ter falado uma besteira ou duas.
Antes de cada uma
das reuniões, ela
me explicou o motivo das discussões, qual eram os objetivos dos clientes e os nossos. Foi
até interessante notar que, de certa forma, o trabalho que eu teoricamente
fazia por alguns anos não era monótono e desagradável como eu pensava ser, e tive
que dar razão às
especulações de
Victoria quando ela dizia que eu só não gostava do que fazia porque nunca havia tentado fazer
direito.
Senti-me um idiota
perguntando-a sobre certas coisas que eu obviamente já deveria saber, mas pude
contar com o profissionalismo e a amizade dela para esclarecer pontos
importantes, até então, negligenciados.
Entretanto, nem meu
empenho em não pensar
em nada além dos assuntos relativos à empresa conseguiu fazer com que eu não lembrasse, duas ou três vezes, dela.
- Estou orgulhosa
de você.
Encarei Victoria um
pouco atordoado, voltando de meus devaneios. Estávamos em minha sala, ela
sentava em uma das cadeiras à frente da minha mesa, e eu ocupava meu lugar na
poltrona preta de couro.
- Ah… Obrigado.
- Suas decisões foram boas. E eu nem precisei me
meter. – Ela me encarava, sorrindo.
- Bom… Acho que
prestei mais atenção dessa
vez.
Ela continuou me
fitando por algum tempo, então falou.
- O que está
acontecendo com você?
- Por que está
perguntando isso?
- Porque você muda
da água pro vinho de um dia pro outro. Eu chego aqui e te vejo deprimido e
cansado do trabalho. No dia seguinte, seu olhar parece ter um brilho de alguém
que acabou de descobrir que se apaixonou pela primeira vez. Então, mais um dia e você está a confusão em pessoa. Não sei o que você tem, e não sei quem está fazendo isso, mas
você parece perdido.
Encarei-a sem dizer
nada. Eu não tinha
o que dizer. Não tinha
como justificar meu comportamento estranho durante aqueles dias. E ela estava
certa, eu estava perdido.
- No entando, – ela
interrompeu meus pensamentos – tem vezes que eu olho pra você e me parece que,
pela primeira vez depois da sua grande fossa, você está começando a se encontrar outra vez. Que
ironia, não é?
- Minha vida é
cheia de ironias, Victoria.
Ela sorriu.
- Tudo bem, Edward.
Não vou forçar a barra. Se e quando você
quiser, venha conversar comigo. Eu sou ótima ouvinte, você sabe disso. Talvez
eu possa te ajudar, se você me deixar tentar fazer isso.
Victoria se
levantou e caminhou elegantemente até a porta.
- Ah, – disse, se
virando novamente para me encarar – amanhã você tem outra festa. Eu te disse isso hoje, mas é sempre
bom lembrar. Seria bom se você fosse, mas se realmente não quiser ir…
- Eu vou. –
Apressei-me em falar, antes que pudesse pensar no fato de que eu realmente não queria ir, e de que preferiria
estar em um outro lugar amanhã a noite.
- Tudo bem. Vá pra
casa dormir, seus olhos estão péssimos.
Deviam estar. Eu estava péssimo, e temia que o caos que se formava dentro
de mim tomasse proporções maiores. Por isso, tão rápido quanto admiti que não era a minha vontade, eu tomei a decisão de deixar minhas necessidades de
lado e realmente ir para casa.
A minha, não a de Tanya.
…
Acordei na manhã segunite reinado por um forte mau
humor, parte porque eu sabia que meu dia não seria bom, e parte pela noite novamente mal dormida.
Despertei algumas vezes de madrugada por culpa de sonhos ruins, e todos eles
contavam com a ilustre presença dela.
Sonhei com um James sem rosto, que batia tanto nela que a deixava desacordada.
Outro sonho consistia em uma realidade paralela onde ela parecia não me conhecer, e um terceiro
consistia em nós dois fazendo sexo selvagem, na minha cama.
Os três sonhos, de
uma forma ou de outra, me apavoraram.
Para minha
infelicidade, não tive
que comparecer a muitas reuniões ao longo do dia. O que antes era um castigo, agora se
mostrava uma forma eficiente de manter meus “fantasmas” um pouco afastados de
mim. Ao invés disso, fiquei o dia praticamente todo sentado à minha mesa, lendo
e relendo contratos.
Infelizmente, pude
constatar que era muito fácil perder o fio de pensamento com simples leituras.
Por isso, obriguei Victoria a ficar do meu lado o dia inteiro, lendo comigo os
papéis. Dessa forma, quando sua perspicácia a avisava de que minha cabeça estava muito além das linhas dos
contratos à nossa frente, ela me chamava novamente à realidade.
Entretanto, nada
disso me distraía do fato de que estava cada vez mais difícil não pensar nela. Conforme o tempo que eu me recusava a lembrar de sua
presença aumentava, maior era a
dificuldade em não
deixá-la invadir minha mente repentinamente.
Eu não poderia fugir dela por muito
tempo, e isso estava ficando cada vez mais claro.
Às 18h fui para
casa tomar um banho e me arrumar para a festa a qual iria comparecer. Não tinha como objetivo fechar
contratos, mas aparentemente, minha presença era algo importante, segundo Victoria me dissera. Dessa
forma, em pouco mais de meia hora eu já estava pronto, ainda me perguntando
qual seria a melhor opção: Sair assim que minha cota de presença fosse suficiente, me livrando
daquele castigo o quanto antes, ou permanecer na festa o maior tempo possível,
evitando que eu fosse parar em um lugar que eu queria ir, mas que estava
tentando não
querer.
Rumei para meu
Volvo trajando roupas menos formais do que as que estava acostumado a usar, e
pouco tempo depois foi recepcionado por pessoas que eu tinha certeza que nunca
havia visto na vida, mas que mesmo assim me chamavam pelo primeiro nome.
A casa era luxuosa,
como todos os lugares em que festas daquele tipo aconteciam. Grande parte das
paredes eram de vidro, dando um estilo clean ao ambiente. No fundo, um jazz sem
graça tocava, me dando sono e me
fazendo lembrar de como odiava o som de saxofones.
Mulheres em vestidos curtos, decotados e caros passeavam entre os convidados sem nenhum objetivo aparente, bebendo taças de champagne e rindo de piadas idiotas proferidas por velhos ricos e abusados.
Mulheres em vestidos curtos, decotados e caros passeavam entre os convidados sem nenhum objetivo aparente, bebendo taças de champagne e rindo de piadas idiotas proferidas por velhos ricos e abusados.
Graças a Deus, não demorei a encontrar Victoria.
Corri para seu lado, decidindo que faria o possível para me sentir à vontade e
me divertir naquele lugar.
- Uau, você está um
gato!
- Não me faça corar na frente dessas pessoas,
Victoria. – Falei, recebendo um sorriso dela em resposta.
- Algumas pessoas
daqui querem te conhecer. Que tal fazer novas amizades? – Ela falou, com um
sorriso debochado.
- Não seja falsa.
- Vamos lá, eles não são tão ruins.
Pouco tempo depois,
fomoso convidados a sentar em uma grande mesa redonda onde homens e mulheres
discutiam sobre negócios, e imediatamente me perguntei se, caso eu puxasse
algum assunto aleatório, como futebol ou música, conseguiríamos manter uma
dicussão normal. Aparentemente, tudo o que
aquelas pessoas pensavam era relacionado a dinheiro, e me senti um pouco
mesquinho por tentar entrar no assunto.
Aceitei uma dose de
whisky oferecida pelo garçom. Victoria me olhou feio, mas não me parou.
- Então, Edward… – Uma mulher de meia
idade começou, já
bêbada, olhando para mim e me tirando de meus devaneios – Onde está a senhora
Cullen?
Victoria pareceu se
mexer um pouco em sua cadeira ao meu lado, um pouco desconfortável com aquele
assunto. Provavelmente tinha medo que a simples menção àquele assunto me traria toda a
depressão pela
qual eu consegui passar. Olhei para ela com uma expressão serena, tentando informá-la que
eu não me importava em falar sobre
aquilo.
- Não sou casado.
Ela pareceu
espantada.
- E por que não? Não quer formar uma família?
- Quero! – Falei
imediatamente, e me surpreendi com a verdade em minhas palavras. Eu nunca havia
sido de pensar muito nisso, mas agora que a questão havia sido colocada à minha frente, pude constatar que a
verdade em minha afirmação era incontestável. – Só não achei uma moça ainda.
Uma amiga da mulher
que conversava comigo, também bêbada, se juntou à conversa.
- Querido,
acredite, você pode ter a mulher que quiser.
- Não acho que possa. – Disse, sorrindo
– Quem sabe um dia…
- Ah, pode sim. – A
primeira mulher interrompeu – Olhe só pro seu “pacote”.
- É mesmo. O pacote
completo!
- Quero dizer, –
ela continuou – você é o dono das Empresas Cullen, não é?
- Não… Meu pai é, eu só dirijo uma das
filiais…
- Já é dinheiro o
suficiente. Filho do dono, vai morrer rico.
- Sem contar que
você é uma pedaço de
mau caminho. – A outra interrompeu, piscando para mim.
- Sabem, – comecei,
um pouco mais sentido do que deveria – eu sou legal também. Sou uma pessoa
bacana.
Tentei buscar algum
apoio de Victoria, mas a essa altura ela já estava absorta em uma conversa com
o casal ao seu lado.
- Claro, claro. –
Uma delas disse, não dando
a menor importância
para minhas palavras – Mas o fato é que qualquer mulher se atiraria aos seus
pés. Você só precisa dar a ela um cartão de crédito.
- O quê? –
Perguntei, incrédulo.
- Olha ali. Está
vendo aquele homem de camisa verde, com aquela vadiazinha?
Olhei para a direção que seu dedo apontava, e vi um
homem de meia idade conversando com uma garota que poderia ser sua filha, com
um vestido extremamente justo e sorrindo de orelha a orelha para o homem,
enquanto dava soquinhos do tipo “fazendo-charme” em seu ombro. O homem
retribuía o sorriso, olhando-a com mais fome do que o adequado em um local
público.
- Estou.
- Pois é. Ele é o
meu marido.
Olhei espantado
para a mulher.
- Você não vai fazer nada?
As duas mulheres se
olharam e, um segundo depois, começaram a gargalhar.
- E por que eu
faria?
Pensei em
explicá-la que aquela garota estava dando em cima de seu marido, e pelo que tudo
indicava, o homem não
estava exatamente lutando contra a sedução. Mas então entendi que, embora bêbada, a mulher tinha total noção disso.
- Eu tenho tudo o
que quero dele. – Ela disse, chegando um pouco mais perto de mim. – Compareço a eventos sociais ao seu lado
para que pareçamos um
casal. Ele paga meus vestidos, meus sapatos e meu cabeleireiro. Aproveito
viagens maravilhosas em cruzeiros pelo menos quatro vezes por ano. Tudo o que
tenho que fazer é fingir que não vejo aquilo.
- É uma troca
justa. – A outra finalizou, dando um sorrisinho e estalando os dedos para o garçom que passava perto da nossa mesa,
trazendo bebidas.
- Como mulher,
estou lhe dizendo. Você pode ter as mulheres que quiser. Não é difícil achar alguém que banque
ser sua esposa. Assim você ganha credibilidade e respeito, e mesmo assim pode
viver sua vida, digamos, “alternativa”, sem pagar nada por isso.
- Só que sua esposa
não pode ser ciumenta, – Começou a outra – com um homem rico e bonito pra cuidar, temos que
admitir que a concorrência aumenta bastante. Até porque uma aliança no dedo torna um homem muito mais
interessante de se conquistar.
As duas piscaram
para mim em sincronia, então fiquei encarando as mulheres com uma cara que, eu sabia,
beirava ao ridículo. Não sabia se estava muito chocado para dizer alguma coisa ou
irritado a ponto de quase mandá-las irem ao inferno, mas qual fosse o caso, eu
não conseguia mais ficar ali.
- Com licença. – Falei, ficando de pé e dando
as costas para a mesa, alcançando outra dose de whisky da bandeja de um dos garçons que passava por ali. Caminhei
em direção ao
bar, eu e minha indignação, então sentei em um dos bancos altos e bebi, de uma vez, minha
dose de whisky.
Eu me recusava a
aceitar que minha vida fosse se transformar nisso. Era difícil aceitar que nada
fosse ser minimamente verdadeiro, e estar cercado por toda aquela falsidade e
interesse só fazia com que eu me sentisse cada vez mais diminuído e menos
valorizado.
Na verdade, tudo o
que acabara de ser dito não chegava a ser uma total surpresa. Eu tinha conhecimento
de casos assim, onde um casamento se sustentava só por sua aparência, mas ter a
confirmação desse
tipo de coisa, com tanta veemência e de uma forma como se parecesse algo tão banal, não estava nos meus planos.
Bebi minha terceira
dose de whisky, seguida de mais quatro doses. Uma garota tentou puxar assunto
comigo, perguntando se eu era “o” Edward Cullen, mas não lhe dei muita atenção. Tentei me manter escondido, não querendo que ninguém me
reconhecesse e viesse falar sobre coisas estúpidas. Eu não estava no meu melhor humor, e
tinha a impressão que
acabaria mandando alguém ir à merda aquela noite.
Eu era um objeto.
No final das contas, todos éramos objetos.
Eu era um objeto,
assim como ela.
Pronto. Toda minha
cautela durante aqueles dois dias tinha ido por água abaixo. Agora eu me
permitia lembrar de Isabella claramente, nos pequenos detalhes, e não tentava segurar a vontade que
tinha de pensar nela cada vez mais. Eu tinha minhas certezas de que o álcool me
ajudava nessa tarefa, me deixando perigosamente vulnerável àquela lembrança.
Tracei uma linha de
semelhança entre
mim e ela, sentindo um pouco de sua amargura me tomar. Nós dois éramos objetos,
nós dois éramos usados. Assim como os clientes dela, as mulheres que se
aproximavam de mim tinham um interesse, algo que não levava em consideração o que eu era, ou como eu me esforçava para ser alguém melhor.
À minha volta, o
jazz insuportavelmente lento e monótono continuava tocando, enquanto mulheres
fúteis ainda riam das mesmas piadas sem graça, contadas pelos mesmos homens de meia idade infelizes e
promíscuos. Os garçons
pareciam ser as únicas pessoas com quem eu ainda mantinha um pouco de simpatia
àquela altura, mas nem eles poderiam me fazer ficar agora.
- Edward!
Victoria me
encontrara. Ela veria meu estado e me daria uma bronca, começando um discurso sobre minhas
responsabilidades e o papel “Cullen” que eu deveria desempenhar. Mas que se
foda.
- O que está
fazendo aqui? Procurei você por todos os lugares!
- Vim beber.
- Eu não acredito que você…
- Victoria, –
comecei, levantando uma mão para interrompê-la – por favor. Me deixe em paz. Por favor.
Algo no tom da
minha voz pareceu alertá-la que talvez eu estivesse falando sério.
- O que aconteceu?
– Ela perguntou, sentando-se no banco alto ao meu lado e tocando meu ombro
esquerdo.
- Não agüento isso. Essas pessoas… É
tudo tão artificial, tão superficial…
Ela continuava me
encarando, obviamente não entendendo do que se tratava minha repentina depressão.
- Eu vou embora
daqui, antes que enlouqueça. – Tirei as chaves do carro de dentro do bolso e
entreguei a ela. – Pode cuidar dele pra mim? Não estou em condições.
- Tudo bem. Por
favor, se cuide. Tente dormir, esquecer o que quer que esteja pensando.
- Victoria, eu não vou pra casa.
Tive que dizer a
verdade para ela. Parte porque o álcool me forçou, mas também porque eu não via motivos para mentir naquele momento.
Victoria me encarou
por mais algum tempo, mas sua discrição sempre fora maior que sua curiosidade. Ela não sabia para onde eu iria, ou com
quem eu iria me encontrar, mas era o suficiente saber que não cabia a ela me fazer perguntas
potencialmente indiscretas.
- Certo. Você sabe
o que está fazendo? – Ela perguntou, preocupada.
- Não. – Admiti – Mas, no momento, esse
é o melhor lugar em que eu posso estar.
Levantei-me,
terminando o oitavo copo de whisky, e caminhei para a saída. Ouvi ao longe
algumas pessoas mencionando meu nome, mas não estava com disposição para conferir do que se tratava. E, afinal, não devia ser importante mesmo.
Usei meu celular
para informar à companhia de táxi o lugar onde o motorista deveria vir me
buscar. Depois de cinco longos minutos, um amarelo vivo parava à minha frente.
Entrei, batendo a porta com um pouco de força, e então recitei o endereço de destino.
…
Não esperei ser recepcionado por quem
quer que fosse. Ao entrar no recinto, tracei um caminho certo desde o início,
simplesmente ignorando a presença de desconhecidos à minha volta ou a menção do meu nome por diferentes vozes
femininas.
Subi as escadas,
tomando cuidado com os degraus que vez ou outra saíam de foco. Lembrei-me que
Isabella não
gostava de mim nesse estado, e imediatamente me arrependi de ter bebido todas
aquelas doses de whisky. Senti o medo da rejeição me atingir como um soco, e me concentrei para me manter
equilibrado enquanto alcançava o último degrau, caminhando um pouco cambaleante para o
corredor.
Eu sempre tive boas
maneiras. Felizmente, se tinha algo do qual eu podia me gabar era de minha
educação e meu cavalheirismo. Assim, só
pude colocar a culpa na bebida quando uma total falta de classe me atingiu,
fazendo com que eu simplesmente girasse a maçaneta do quarto de Isabella e entrasse, sem a menor cerimônia.
Encontrei um quarto
vazio, a cama feita. Fui possuído por um ódio irracional antes mesmo de
verificar o motivo pelo qual ela não estava no quarto. Talvez ela tenha saído, meu lado otimista argumentou, mas
quase que imediatamente foi atropelado pelo lado pessimista, dizendo Ou então ela pode estar no salão se oferecendo pra qualquer um.
Talvez uma das vozes que eu
decidi ignorar fosse dela.
Não. Eu reconheceria sua voz falando
qualquer coisa, principalmente o meu
nome.
Talvez ela pensasse que eu não viria hoje, já que ontem estive ausente. Era possível. Mas de qualquer
forma, ela deveria estar ali, não é? Segura e escondida de todos aqueles homens cheios de
más intenções.
Devo ter divagado
por um bom tempo, de pé, olhando para a cama, e então um barulho de tranca de porta me
despertou. Olhei para a direita pela primeira vez, como se antes a porta do
banheiro não
estivesse ali, e fiquei olhando-a ser aberta e revelar, lentamente, uma
Isabella molhada da cabeça aos pés, tentando se enrolar em uma toalha fofa branca
deixando à mostra partes de seu corpo entre as fendas que o pano fazia. As
partes do corpo dela mais lindas.
Ela demorou para
notar minha presença ali.
Estava cantando uma música qualquer, olhando para o chão enquanto balançava as pontas da toalha em seus
cabelos, tentando deixá-los menos molhados. Não sei se fiquei em silêncio porque estava hipnotizado ou
porque tinha alguma esperança de que talvez ela não fosse reparar em mim bem ali, no meio do quarto, olhando
para ela com cara de psicopata.
Era incrível como
ela estava mais bonita do que eu lembrava. Talvez isso se devesse ao fato de
que eu vinha tentando não lembrar dela, tentando afastar a imagem dela dos meus
pensamentos. Talvez uma parcela dessa culpa também fosse das doses de whisky,
mas o fato era que, naquele momento, Isabella era, sem dúvida alguma, uma das
coisas mais lindas que eu já havia visto na vida.
- AAAHHH!
Ah, sim. Eu ainda
estava ali, no meio do quarto dela.
- Oi. Desculpa.
- Porra, Edward! –
Ela falou, puxando a toalha de todos os cantos e tentando cobrir as partes que
eu olhava como um tarado.
- Desculpa, eu não sabia que você ia sair nua de lá
de dentro. – Falei meio sem pensar – E não é como se eu já não tivesse visto, né? – Sorri maliciosamente.
- Não é porque você já viu que pode
entrar no meu quarto e ficar me assistindo aqui!
- Tá bem, tá bem. –
Eu disse, como se desse razão a ela e estivesse prestes a sair do quarto. Mas devido ao
meu estado alcoolizado, continuei olhando para seu corpo, como se não tivesse dito absolutamente nada.
- OI? – Ela gritou.
- Mas que saco! –
Virei, a contragosto, fitando uma parede branca e incrivelmente sem graça por longos cinco segundos. – Já
posso olhar? – Perguntei, impaciente. Sem esperar uma resposta, virei novamente
para encará-la.
Ela terminava de
vestir um robe bege muito claro, cuja cor era incrivelmente parecia com a
tonalidade de sua pele. Não sei como isso era possível, mas só de olhar para ela eu
conseguia sentir – ou achar que sentia – o frescor do banho recém tomado e a
maciez daquela pele clara, ainda um pouco úmida e extremamente convidativa.
Deus, eu estava com saudades
dela.
Fiquei admirando-a
como um cachorro admira um frango sendo assado na padaria, mas estava muito
bêbado para me sentir envergonhado por isso. Ela continuava tentando secar
melhor o cabelo com a mesma toalha, enquanto também me encarava com um olhar
curioso e ainda um pouco irritado.
- Por que não veio ontem? – Ela quebrou o
silêncio, indo se sentar na cama.
- Porque não quis. – Achei melhor resumir toda
a situação do
“quero-parar-de-pensar-em-você” com essa pequena frase. Não que eu me importasse em falar a
verdade, dado o alto nível de álcool no meu corpo, mas simplesmente não queria falar muito.
- Ah. – Ela desviou
o olhar, e imediatamente notei que minha resposta pareceu grosseira – Pensei
que você viesse todos os dias, já que pagou por eles…
Eu também havia
pensado nisso, mas graças ao pânico e confusão recentes em que eu me encontrava ao me pegar pensando
nela ou a desejando, tive que mudar meus planos. Sim, no final das contas, eu
era um covarde.
- Você deve ter
notado que eu bebi. – Tentei mudar de assunto, indo me sentar do lado dela, um
pouco mais próximo do que o ideal. – Mas não vou machucar você.
- Eu sei que não. Que besteira. – Ela falou,
soltando um sorriso sarcástico.
Sem pensar muito,
levei minha boca ao pescoço dela, beijando-a de leve embaixo da orelha. Senti a
temperatura fresca de sua pele com os lábios, e imediatamente notei que ela
estava arrepiada.
Apoiei-me com o braço esquerdo na cama, enquanto levava
minha mão
direita até sua nuca, trazendo-a mais para perto. Intensifiquei o beijo em seu
pescoço, deixando lufadas de ar em sua
pele e sentindo, com o rosto, a maciez do rosto dela.
- Por que não está usando o seu perfume?
- Não precisei do creme essa semana. –
Ela falou, ofegante.
Era verdade, o tal
creme servia para melhorar os hematomas que ela conseguia com os clientes. Como
eu paguei pela semana inteira, ela obviamente não tinha adquirido novos machucados para a coleção. Fiquei satisfeito com esse fato,
mas eu realmente, realmente gostava daquele perfume.
- Quer que eu passe
pra você?
Para mim. Ela não passaria porque estava machucada,
porque precisava. Ela passaria paramim.
Porque ela sabia que aquela porra daquele perfume me deixava louco.
Inconscientemente,
tirei a mão
esquerda que apoiava meu corpo do colchão e a deslizei para dentro do seu robe, fazendo movimentos
circulares em uma de suas coxas.
- Quero… – Falei,
tentando conter um mínimo de firmeza em minha voz, ainda respirando em seu
pescoço.
Protestei quando
ela se afastou, levantando-se e caminhando até o banheiro. Fiquei encarando a
porta feito uma criança abandonada, mas para minha felicidade, segundos depois
ela estava de volta, trazendo um frasco de um líquido cremoso, e meu membro
latejou dolorosamente com a aproximação de um desejo intenso.
Isabella me girou
um pouco, de forma que meus pés tocassem o chão fora da cama, como se estivesse perfeitamente sentado em
uma cadeira. Posicionando uma perna de cada lado do meu corpo, ela sentou no
meu colo, me encarando com um olhar que conseguia ser doce e provocante ao
mesmo tempo.
Então, certamente com o objetivo de me
matar, ela desfez o nó em seu robe e o puxou para baixo, deixando-o deslizar
pelas minhas pernas e cair no chão. Ainda me encarando, Isabella segurou uma das minhas mãos e espremeu uma gota do conteúdo
do frasco em minha palma, enquanto eu tentava controlar minha respiração.
- Passe em mim.
Ela realmente
achava que eu ia conseguir passar aquela merda nela? Ela não podia achar isso. Eu mal
conseguia raciocinar, e parecia estar debilmente congelado, enquanto meu olhos
varriam seu corpo de cima a baixo e eu tentava arquitetar um plano de como
tirar todas as minhas peças de roupa em menos de um segundo e me enterrar dentro
dela tão fundo que meu orgasmo viesse na
primeira investida.
Finalmente ela
pareceu entender que aquilo era um pouco demais para minha mente alcoolizada,
então segurou firmemente minha mão e a trouxe até seu peito,
espalhando ali o líquido perfumado. Como um adolescente na puberdade, quase
explodi de tesão ao
admirar como minhas mãos meladas deslizavam nos seios dela de uma forma
hipnótica, e no momento o único medo que eu tinha era de estar, literalmente,
babando.
Então meu cérebro captou aquele
perfume, agora sendo espalhado por toda a extensão de seu corpo. Era incrível como aquele perfume me trazia
uma lembrança tão deliciosa. A lembrança dela. Não poderia haver perfume melhor em qualquer lugar do mundo.
Aquele perfume era um afrodisíaco pessoal, e eu temia que, misturado com todas
aquelas doses de whisky, eu acabasse em algum tipo de limbo.
Meu Deus, que saudade dela.
- Bella…
- Sim? – Ela disse,
ainda me encarando com aquele olhar deliciosamente inocente.
- Eu posso… Por
favor… – Eu tentava manter um raciocínio lógico, mas era praticamente
impossível. Impossível porque aquele perfume estava muito forte para me
permitir pensar. Impossível porque ela estava muito perto. Impossível, porque
eu a queria demais.
- Você me quer? – Ela falou em um tom provocativo ao pé do meu
ouvido.
- Muito… – Tentei
dizer, mas tudo o que consegui fazer foi suspirar a palavra, encostando a cabeça em seu ombro.
- Você pode fazer o
que quiser. Eu sou sua essa semana, lembra? – Ela falou, desabotoando minha
camisa. Tentei ignorar a dor aguda que senti com a adição do “essa semana” à frase. Ela era
minha por essa semana, e se eu não pagasse pela próxima, ela não pertenceria mais a mim.
Com suavidade, ela
me empurrou para trás, me fazendo cair de costas na cama, enquanto ela se
mantinha em meu colo. Com mestria, se desfez de minha camisa e começou a desabotoar minha calça.
Novamente senti uma
dor aguda ao pensar que sua mestria naquilo se dava pelo fato de Isabella ter
tido tantas outras experiências que lhe deram praticamente perfeição no que ela devia fazer. Doía
saber que eu era só mais um naquele momento, aperfeiçoando suas habilidades.
De fato, eu era só
mais um. Eu havia tido essa certeza hoje, e para ser sincero, vinha tendo essa
certeza há algum tempo. Lembrar disso só fez com que eu me sentisse ainda menor
e mais insignificante.
- Espera. – Falei, enquanto
segurava suas mãos que,
agora, tentavam puxar minha calça para baixo.
Ela me olhou
confusa.
- Só… Finja que
sente alguma coisa. Qualquer coisa. – Falei, tentando conter a emoção que me dominou, me lembrando
novamente o quão
bêbado eu deveria estar – Finja que eu sou importante.
Fiz esse pedido a
ela de uma forma verdadeira, talvez muito mais verdadeira do que eu gostaria de
admitir. Não
porque ela era a única garota que poderia fingir que se importava, mas sim
porque ela era a única em cujo fingimento eu queria acreditar.
Ela me encarou com
uma expressão
indecifrável no rosto por algum tempo, então deu um sorriso um pouco infeliz.
- Se você soubesse…
– Começou, acariciando meu rosto com os
dedos finos, ainda me encarando. Segurei sua mão ali por mais algum tempo, querendo apenas sentir o calor
que a pele dela emanava, mas finalmente a soltei, deixando-a fazer seu trabalho .
Fechei os olhos e
me deixei sentir querido naquele momento. Eu sabia que se iludir assim com uma
prostituta era patético, mas me deixar enganar pelos “sentimentos” de uma
garota de programa era mais aceitável do que ser enganado por uma garota
qualquer. No final das contas, eu estaria ciente de que fora iludido, o que era
diferente de se iludir por ser muito inocente para notar a mentira.
Como imaginei,
Isabella fez o que pedi com perfeição. Com a ajuda do álcool, eu podia acreditar que aquela não era uma garota de programa, agora
cavalgando em mim com tanta intimidade, mas sim uma pessoa que de fato sentia
algo por mim. Não
necessariamente amor, mas pelo menos algum sentimento bom, algo que não fosse só tesão ou interesse.
Mas, novamente, eu
devia lembrar que estava bêbado, e portanto, sensível. Além disso, estava
permitindo que ela voltasse com força total à minha vida, exercendo aquele poder estranho que
ela ultimamente vinha exercendo. Eu estava inclinado e misturar todas essas
coisas, o que me deu uma maldita esperança de que aquilo tudo poderia não ser só fingimento.
E essa esperança ia me deixar na merda.
Por que ela tinha
que ser tão boa?
Por que tinha que ser tão linda? Tão ela?
Por que tinha que
ter aquele perfume, ou aqueles olhos? E por que tinha que me olhar daquele
jeito, como se gostasse de mim?
Tentei manter minha
cabeça ocupada com essas divagações porque a única pergunta para a
qual eu realmente queria respostas provava que, ao invés de me afastar, eu
queria desesperadamente me aproximar cada vez mais dela.
Por que ela tinha que ser uma
puta?
- Edward… – Ouvi-a
sussurrar em meu ouvido, agora deitada sobre mim, tentando controlar os
tremores na voz por causa dos movimentos.
Ela ia dizer alguma
coisa. Talvez algo importante. Mas ouvir a porra do meu nome sendo pronunciado
por aquela garota na porra do meu ouvido, enquanto eu metia nela, exigia muito
do meu controle.
Instintivamente,
abracei-a com força,
tornando os movimentos dentro dela mais bruscos e desesperados, enquanto
esperava em silêncio pela continuação daquela sentença.
- Finja que eu sou
importante também.
Sim. Eu queria
poder só fingir que ela era importante. Aliás, eu queria estar só fingindo para
mim mesmo que ela era especial.
Mas ela era especial.
Especial demais
para o pouco de tempo que nos conhecíamos. Importante demais para uma puta.
Mexendo com a porra da minha cabeça mais do que podia.
Nos virei na cama,
de forma que eu ficasse em cima dela, e ao encarar seu rosto outra vez, a
vontade de beijá-la veio com uma força perigosa demais. Por que todos os sentimentos que ela
despertava em mim tinham que se manifestar com tanta intensidade?
Mas eu não podia beijá-la. Ela era uma
garota de programa, e eu tinha experiência com mulheres assim para saber que
quase todas elas se negavam a beijar, por esse ato ser algo íntimo demais para
uma relação
meramente profissional.
Fiquei um pouco
chocado em constatar a principal razão pela qual eu não a ataquei como um adolescente cheio de hormônios. Eu pensei que ela não aceitaria, e sequer considerei a hipótese de não fazer isso porque beijar uma puta
estava fora de questão.
É. Eu já estava na
merda.
Antes que pudesse trair
a mim mesmo, enfiei meu rosto em seus cabelos, enquanto investia nela com força. Senti suas mãos se enrolarem em meus cabelos
enquanto ela distribuía beijos molhados pelo meu pescoço, o que não me fazia querer provar a língua
dela menos.
Com uma disciplina
bastante elevada para um bêbado, controlei nossos orgasmos por algum tempo,
sempre diminuindo o ritmo e mudando de posição quando sentia que ela ou eu começávamos a perder o controle. Quando
a situação
chegou a um ponto incontrolável, permiti que ela gozasse primeiro, seguindo-a
quase que imediatamente.
O pouco de razão que ainda restava em mim gritava
para que eu me vestisse e fosse embora dali, mas como, naquele momento, meu
lado emocional parecia predominante, me deixei relaxar em cima dela, tomando
cuidado com o peso do corpo.
Ela não falou nada por um longo tempo. Eu
também não
falei. Diferentemente de outras transas que eu tive, onde o silêncio
pós-orgasmo se mostrava constrangedor, eu entrava em um estado de desespero com
o fato de não ter
nada o que dizer. Mesmo assim, costumava falar qualquer merda, só para que o
silêncio não
continuasse.
Com ela, não parecia ser assim. Eu estava
confortável com aquele momento de paz, e não era necessário preenchê-lo com palavras. Na verdade,
parecia até errado falar algo que quebrasse o estranho clima de magia e
tranqüilidade. Eu não
acharia palavras que valessem ser ditas, então me deixei saborear o momento.
Me permiti sentir
as mãos dela passeando pelas minhas
costas despreocupadamente, como se estivessem brincando ali. Me permiti sentir
o perfume da pele dela sem restrições, sem tentar me afastar, posicionando estrategicamente
meu rosto na curvatura de seu pescoço. Me permiti afundar os dedos em seus cabelos, ainda
molhados, enquanto fazia movimentos sem um propósito certo, mas que
simplesmente pareciam caber ali.
Ficamos assim por
algum tempo. Vez ou outra eu suspirava, pensando nas coisas que fiz e nas quais
não deveria ter feito, sentindo um
prazer divertido em notar a pele de seu pescoço se arrepiando a cada lufada de ar que eu dava.
- Dorme aqui…
Fui pego de
surpresa pelo som inesperado, quebrando o silêncio confortável e, junto com
ele, como eu havia imaginado que aconteceria, a magia daquele momento. Suas
palavras atingiram a parte racional em mim, aquela que ainda lutava bravamente.
Então, como senti uma vontade quase
imoral de aceitar seu pedido e permanecer ali aquela noite, naquela cama, com
ela daquela forma, senti a necessidade de fugir, como o covarde que era.
Porque, se eu não saísse rápido, acabaria cedendo a
ela.
Em tudo.
- Não, tenho que ir – Falei, já me
levantando e coletando minhas roupas espalhadas pelo quarto, enquanto
descartava o preservativo usado.
- Mas amanhã é sábado.
Sua voz parecia um
pouco desapontada, então tive que fazer força para não cair nessa armadilha. O tom de tristeza em sua voz
conseguia me deixar perigosamente vulnerável.
- Amanhã tenho que acordar cedo. Vou estar
ocupado. – Falei um pouco ríspido, colocando minhas calças sem olhar para ela.
Era mentira. Eu não faria absolutamente nada amanhã.
Bom, talvez
passasse o dia todo me martirizando pela fraqueza de hoje. Mas nada além disso.
- Ah, entendi. Tudo
bem então.
Só eu tinha
conhecimento da batalha épica que estava sendo travada dentro de mim. De um
lado, minhas emoções diziam
para pular novamente naquela cama, pegar Isabella no colo e a enrolar como uma
bola em meu peito. Do outro, minha razão – ou talvez covardia – ordenava que eu saísse dali.
Imediatamente.
Vesti a camisa de
qualquer jeito, calcei os sapatos e olhei para ela pela primeira vez, desde que
eu havia decidido ir embora.
Seu olhar era
intenso. Não só
isso, mas a ligação que
se formou entre nossos olhares. Intenso como alguém se sente quando tem 14 anos
e seu amor platônico o
olha pela primeira vez. Intenso de fazer sumir o que existe ao redor. Intenso
como se faíscas estivessem ricocheteando pelas paredes do quarto.
Intenso pra
caralho.
Por um momento, me
esqueci que havia decidido ir embora.
- Tudo bem?
- Tudo – Falei,
piscando algumas vezes e desviando meu olhar do dela – Eu vou então. Até outro dia.
- Até.
Saí com passos
apressados do quarto, tentando não sair correndo.
A presença dela me prendia ali. O clima daquele quarto me deixava fraco, quase indefeso, e eu comecei a temer pela minha sanidade mental. Precisava tomar medidas sérias para controlar toda a minha falta de experiência quanto aos meus próprios sentimentos, quando o assunto era ela.
A presença dela me prendia ali. O clima daquele quarto me deixava fraco, quase indefeso, e eu comecei a temer pela minha sanidade mental. Precisava tomar medidas sérias para controlar toda a minha falta de experiência quanto aos meus próprios sentimentos, quando o assunto era ela.
Desci as escadas
com pressa, ignorando novamente algumas vozes melosas que me chamavam. Segui
pela saída dos fundos, encontrando uma rua fantasmagoricamente deserta e
escura. Não me
importei e caminhei um pouco, não querendo pensar em nada. Em absolutamente nada.
Depois de alguns
minutos, me dei conta de que tinha que chamar um táxi, se não quisesse ir para casa a pé.
Disquei o número salvo no meu celular, útil para emergências como essa, e
esperei. Meia hora depois, já estava em casa.
Cambaleei para a
cama, sem me preocupar em tomar banho ou trocar de roupa. Rezei silenciosa e desesperadamente
para que o sono me dominasse o mais rápido possível. Eu não queria pensar, porque se
pensasse, chegaria a conclusões um tanto apavorantes. Eu não saberia lidar com elas, porque era fraco ou imbecil, mas
de qualquer forma, tinha certeza que poderia acabar louco ou depressivo.
E só por ter essa
noção, eu já fazia idéia do que estava
acontecendo comigo, mas sempre que essa idéia surgia em minha mente, eu a
deixava de lado, apavorado demais para tentar lidar com ela.
Eu já fazia idéia.
Eu já sabia.
Mas não queria admitir. Não podia admitir.
Eu não iria admitir.

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