Capitulo 15
Bella’s
POV
Acordei cedo no
sábado. O relógio marcava perto das 7h, enquanto eu me acostumava à claridade
suave que preenchia o meu quarto através das frestas da persiana.
Não consegui dormir direito aquela
noite graças aos
sonhos que teimavam em vagar pela minha cabeça. Sonhei com meus pais, ainda vivos, deitados ao meu lado
na mesma cama em que eu agora me encontrava. Meu pai mexia em meus cabelos, e
minha mãe fazia
carinho na minha barriga, como costumava fazer quando eu era pequena e tinha
problemas para dormir. Ambos pareciam me confortar por algum motivo que eu
desconhecia.
Também sonhei com
Edward. Não
lembro direito o que foi, mas sei que era ele porque, primeiro, ele vestia as
mesmas roupas de ontem, e segundo, minha cabeça atualmente apresentava a mania irritante de colocá-lo em
meus sonhos todos os dias.
Me permiti ficar
aconchegada em meu cobertor e pensar nele. Não que eu quase não fizesse isso, mas pensar nele era bom, e eu nunca parecia
cansar de lembrar do rosto que atormentava ou dava luz aos meus sonhos. De
fato, talvez fosse por isso que eu não conseguia não sonhar
com ele.
Lembrei do que
aconteceu ontem. Foi tudo tão rápido que, quando dei por mim, já estávamos fazendo o
que estávamos fazendo. Ele não havia me impedido dessa vez. Pelo contrário, até fez com
que eu acreditasse que queria, e a julgar por seus olhos que esbanjavam desejo,
mesmo estando claramente bêbado, e por sua nada discreta ereção, ele realmente queria.
Essa era a parte
que me deixava confusa, porque, no final da noite, eu tive a clara impressão de que ele estava tentando me
evitar.
A forma como Edward
foi embora pareceu uma fuga. Eu não sabia do que ao certo ele fugia, mas me senti
incrivelmente frustrada, principalmente depois de tudo o que aconteceu naquela
noite. Havia sido ele quem havia começado a sedução, coisa que vinha se negando
veementemente a fazer. Depois disso, me pediu daquela forma para que eu fingisse sentir algo por ele.
Lembro que tive que
usar bastante do meu auto-controle para não mostrar, de verdade, tudo o que eu sentia por ele. Não sabia quem tinha sido a pessoa que havia lhe dado a
impressão de
que ele não era
importante, mas gostaria imensamente que ele não acreditasse no que quer que o tenham dito.
Bem, talvez eu não tenha sabido mostrar a ele que
ele era importante. Mas se assim fosse, acredito que ele não permaneceria no meu quarto comigo
depois. Foi só quando eu pedi para que ele ficasse que algo pareceu mudar
dentro de sua cabeça, então ele tinha que ir embora.
Eu não sabia por que ele havia feito aquilo. Mas o que quer que fosse, me deixou um pouco mais triste do que deveria.
Eu não sabia por que ele havia feito aquilo. Mas o que quer que fosse, me deixou um pouco mais triste do que deveria.
Assim, eu tinha
certeza que não o
veria aquele fim de semana.
…
Aquele sábado foi
tedioso e desagradável.
Queria não ter me levantado tão cedo da cama, assim teria menos
tempo para ouvir as perguntas de Angela e Jéssica sobre Edward.
- Você acha que ele
vai vir aqui hoje?
- Não.
- Por que não?
- Porque não acho, Jéssica. Só por isso.
Essa era a razão, pura e simples, e eu queria que
ela parasse de tocar nesse assunto, porque me incomodava imensamente saber que
ele não viria e, mais ainda, não entender o motivo pelo qual ele
queria distância de
mim.
- Ele pagou pela
sua semana! Com certeza ele deve gostar de você.
- Não, Angela. Ele só tem uma proteção esquisita comigo.
- A semana toda,
Bella! Isso não é
proteção.
- Se ele gostasse
de mim, ia querer ficar por perto. - Como ele disse que faria, pensei – Ele não vem.
Não sei há quanto tempo elas tinham
na cabeça
aquela idéia ridícula de que Edward poderia gostar de mim, mas eu queria
arrancar esse pensamento delas à força, se fosse preciso. Eu não precisava de bobagens na minha própria cabeça me dando esperanças para, depois, quebrar a cara, e
estava feliz comigo mesma por sequer considerar a possibilidade de isso ser uma
verdade.
- Ainda acho que
ele vem – Começou
Jéssica.
- Eu também, –
Completou Angela – e talvez te leve pra ir a algum lugar.
As duas se olhavam
e davam risinhos agudos como meninas pré-adolescentes falando de rapazes,
enquanto eu tentava ignorá-las, arrumando um pouco meu quarto.
- Eu queria um
Edward pra mim. – Falou Jéssica, agarrando-se a um dos travesseiros como se ele
fosse um homem.
- E quem não queria? – Angela provocou,
deixando-se cair pesadamente na cama.
- Ei, acha que ele
vai comprar um presente pra Bella?
Angela pareceu ver
o Papai Noel em pessoa.
- Oh, meu Deus!
Será que ele vem trazer o presente adiantado hoje?
As vozes e os risos
das duas atingiram uma oitava audível apenas por cães, e a excitação de ambas estava me dando nos
nervos. Porque eu sabia que elas estavam muito animadas à toa, e eu não queria que elas me animassem
assim.
- ELE NÃO VAI VIR! – Gritei, sobrepondo
minha voz às vozes delas.
Angela e Jéssica
olharam-me espantadas, sem sorrir agora, enquanto um silêncio constrangedor
instalava-se no ambiente.
Suspirei, tentando
ficar calma.
- Desculpem.
- Tudo bem – Angela
disse, levantando-se e puxando dos braços de Jéssica o travesseiro que ela ainda mantinha apertado
– Você parece querer ficar sozinha. Vamos te dar um pouco de privacidade.
- Não fiquem chateadas comigo, por
favor. Eu só não quero
que vocês acreditem nisso. Ele não .vem.
- Não estamos chateadas – Angela falou,
e felizmente eu consegui acreditar no seu tom de voz – Mas você deveria se
deixar acreditar em milagres. Às vezes, um pouco de esperança é a única coisa que nos resta.
Dizendo isso, saiu
do quarto com Jéssica em seus calcanhares, deixando a porta aberta.
Talvez ela
estivesse certa. Talvez esperança fosse a única coisa com a qual eu pudesse contar, mas eu
temia o tamanho da queda se eu acreditasse que podia voar.
De qualquer forma,
no final das contas pude constatar que eu não estava totalmente errada.
Ele não apareceu.
…
- Vamos ao
shopping!
A voz entrou em meu
quarto rápido demais para meu raciocíno lento, enquanto eu deixava o livro de
lado na cama e tentava identificar quem havia acabado de praticamente arrombar
minha porta.
- Ah, estou bem
aqui, Angela. Te acompanho outro dia.
- Bella, não foi uma pergunta. E não há “outro dia”, preciso comprar
seu presente.
- Não precisa não!
- Qual é, Bella –
Interrompeu Jéssica, entrando no quarto tão rápido quanto Angela. – Deixa de ser desanimada, vamos
passear!
- Vocês não vão comprar nada pra mim!
- Ei, você não manda na gente. Agora, levante-se
e se vista. Nós duas já estamos prontas, e você está atrasando a programação do nosso domingo feliz.
- Eu realmente
prefiro…
- Você não tem nada pra fazer aqui, Bella!
Vi a cutucada
discreta de Angela no braço de Jéssica. Lembrei de como as duas estiveram felizes por
ontem, pensando que eu receberia a visita de uma certa pessoa. Talvez
estivessem se sentindo culpadas porque achavam que me fizeram acreditar nos
devaneios delas, e de certo modo me agradou saber que aquele assunto não surgiria em nossas conversas
hoje.
- Podemos pegar um
cinema.
- É, tem alguns
filmes em cartaz que parecem ser legais. Acho que todas nós optamos por uma
comédia, certo? – Jéssica perguntou.
- Sim! – Angela
respondeu pelas três. – Bella, ainda estamos te esperando aqui.
Certo. Elas não me deixariam mesmo em paz.
- Ok. Vocês compram
os presentes que eu escolher, certo?
- Não vale escolher algodão-doce e ímãs de geladeira. Vamos te dar
presentes de verdade!
Droga. Elas me
conheciam.
- Vamos te dar dez
minutos para se trocar, e se nós voltarmos e você ainda estiver de pijamas, se
prepare para a fúria de Jéssica Stanley.
Prendi o riso com a
imagem que me veio à cabeça de uma Jéssica minúscula fazendo ameças e me dando soquinhos de criança.
Assim, como
ordenado por Angela e Jéssica, fui às compras no início da tarde de domingo.
Tentei escolher presentes baratos e sem importância, alegando que “uma lembrancinha já estava bom”, mas
elas se negaram veementemente a aceitar minha atitude, e no final do dia
estávamos, as três, na fila do cinema enquanto eu carregava um par de botas
longas e pretas e uma bolsa de couro marfim.
Vimos uma comédia
com atores famosos, e não sei se era o meu estado de espírito, mas o filme era um
tanto quanto sem graça. Mesmo assim, foi uma distração útil para tirar da minha cabeça a única coisa na qual eu vinha
pensando desde o início daquele domingo.
Ele.
Não que eu tivesse de fato começado a acreditar nas ilusões de Jéssica e Angela sobre
Edward, mas eu ainda estava incomodada com a atitude dele de fugir de mim. E o
que mais me incomodava era que eu não conseguia entender, por mais que me esforçasse, o que diabos eu havia feito
para que ele agisse daquela forma.
Seria meu
aniversário no dia seguinte, e doeu ter quase certeza de que eu não o veria. De queele não iria me ver. Era até mais aceitável que ele já tivesse
esquecido desse detalhe, mas o pior era que, mesmo que ainda lembrasse, o que
eu achava improvável, ele me evitaria, assim como fez na noite de sexta-feira.
- Gostou do filme?
- É engraçadinho. – Falei, voltando de meus
devaneios.
- Nossa, você tem
andado muito rabugenta esses últimos dias. Nada te agrada! O que aconteceu?
Eu deveria contar o
que realmente aconteceu? Deveria dizer a elas que eu estou apaixonada por um
cliente e que ele parecia querer me evitar?
- Nada. – Menti.
- Mentirosa! –
Jéssica esbravejou – Somos suas amigas, pode nos contar.
Eu sabia, elas eram
minhas amigas e eu podia contar com elas para conselhos ou simplesmente para
desabafar, mas eu não
queria dizer a verdade. Não agora.
- Devo estar no meu
inferno astral, só isso.
Elas obviamente não acreditaram, e me encheram de
perguntas durante todo o caminho de volta para casa. Felizmente, elas não tocaram no nome de Edward, porque
eu tinha certeza que se ouvisse o nome dele, entregaria tudo.
Pouco tempo depois,
chegamos em casa. Já estava perto das 21h, e eu não tinha fome. Por isso, rumei diretamente para meu quarto,
desejando boa noite apenas às minhas duas companheiras de shopping, e me
trancando lá.
Amanhã eu teria o dia de folga. Isso era
bom, eu não
precisaria já voltar à rotina. No entanto, sabia que no dia seguinte, teria que
retomar meu papel. Edward não pagaria por mais uma semana minha, eu tinha certeza, então era bom eu já me conformar com a
idéia.
Tomei um banho
demorado e me deitei na cama, esperando o sono chegar. Não demorou muito, e alguns minutos
depois eu já mergulhava em uma total escuridão.
Uma noite sem
sonhos. Meu primeiro presente de aniversário.
…
Segunda-feira.
Acordei perto das 9h. Demorei um pouco para lembrar que era meu aniversário, e
então, depois de notar esse detalhe,
resolvi ficar na cama por mais um tempo. Originalmente, minha idéia era sair
por aí e não fazer
nada específico. Eu não poderia comemorar com as minhas amigas, porque elas
tinham que trabalhar. Embora eu pudesse tirar o dia de folga, não seria a mesma coisa para elas.
Mas então,
decidi que talvez ficar embaixo do cobertor ouvindo música parecia ser uma boa
coisa para fazer enquanto esperava aquele dia passar.
O dia não seria muito diferente dos outros.
Certo, eu não teria
que trabalhar, o que era bastante bom, mas fora isso, eu não via a menor diferença. Eu notava que algumas pessoas se
sentiam um pouco mais importantes nos dias dos seus aniversários, mas nunca foi
assim para mim, e eu sempre me perguntei o motivo. Talvez fosse bom se sentir
mais importante em um único dia dentre os demais do ano.
Fingi continuar
domindo mesmo depois das cinco vezes em que ouvi batidas em minha porta e
alguém abrindo-a minimamente para checar se eu já havia acordado. Eu não estava desanimada, mas não queria toda a atenção que eu sabia que iria receber no
momento em que pusesse os pés no andar debaixo. Não que eu não gostasse das meninas, mas eu simplesmente preferia ficar
na minha. E afinal de contas, era só o meu aniversário. Não era como se eu tivesse ganho na
loteria ou fosse me casar.
Mas eu não poderia continuar fingindo pelo
resto do dia, por isso, às 11:30h aproximadamente, me levantei, tomei um banho
e vesti uma roupa casual para sair.
Quando apareci na
cozinha, algumas meninas que ali estavam vieram me cumprimentar, me desejando
felicidades. Agradeci a todas verdadeiramente contente, enquanto me servia de
meio copo de suco de laranja. Alguns minutos depois, só restávamos eu, Jéssica
e Angela na cozinha, fofocando sobre assuntos aleatórios.
- Caramba, você
acordou muito tarde! Já estamos quase almoçando! – Começou Jéssica.
- Já que hoje é meu
aniversário, deveríamos ter alguma comemoração, não é? Por que não almoçamos juntas?
- Ei, gostei da
idéia! Tem algum lugar em mente? – Perguntou Angela.
- Não. Vocês podem me ajudar a decidir.
– Olhei para o relógio, que marcava 12:15h – Vão se arrumar que saímos daqui a vinte minutos.
- Êêê, festa! –
Jéssica exclamou, já pulando de sua cadeira e saindo da cozinha, junto com
Angela, e me deixando sozinha ali.
Fiquei pensando no
que poderíamos fazer enquanto a noite não chegasse e elas fossem obrigadas a voltar para casa.
Jéssica certamente sugeriria shopping, mas como o aniversário era meu e eu
podia dar essa desculpa, acabaríamos sentadas, as três, em um bando de parque
conversando sobre nossas vidas e tomando sorvete.
- Bella…
Angela entrou
novamente na cozinha, ainda vestindo as mesmas roupas.
- Ei, vá se
arrumar! Está atrasando a minha festa! – Falei, num tom brincalhão.
- Acho melhor você
ir sozinha. Não estou
me sentindo muito bem, e Jéssica precisa fazer… uma coisa.
- É. – Jéssica
assentiu, do seu lado, com uma cara mais animada do que de costume.
- Que coisa? –
Perguntei, suspeitando da atitude das duas.
- Não seja indiscreta. Agora vai logo!
– Angela me puxou da cadeira enquanto eu tentava apoiar no ombro minha bolsa.
- Mas.. Vocês vão me deixar ir sozinha? É meu
aniversário!
- Sim, vamos. Você
vai arranjar algo interessante pra fazer. – Finalizou Jéssica, enquanto ajudava
Angela a me empurrar pela porta que dava para os fundos da casa.
Fiquei um pouco
chateada pela atitude das duas, mas depois elas teriam que me explicar o motivo
daquilo. No momento, se eu continuasse tentando ficar dentro da casa, elas
acabariam me chutando para a rua.
Me senti rejeitada
e com raiva. Eu sei, havia alguma coisa que elas estavam escondendo de mim, mas
mesmo assim, me deixaram sozinha no meu aniversário! Sendo que eu as tinha convidado! Porra!
Passei pela porta
que dava para a rua de trás, deserta até mesmo àquela hora, enquanto tentava
afastar o sentimento de rejeição das minhas ex melhores amigas, então dei alguns passos pela calçada, olhando o chão, até me dar conta de que eu não estava sozinha.
Subi os olhos e me
deparei com um homem de cabelos rebeldes com as mãos no bolso, em roupas casuais – tênis, calças jeans e uma camisa polo preta –
encostado em um Volvo prata, me encarando com um sorriso leve nos lábios.
Se eu não o conhecesse, diria que um anjo
havia acabado de cair na minha frente.
Mas eu o conhecia.
Não só o conhecia, mas não conseguia parar de pensar nele
durante esses últimos dias, não conseguia parar de pensar no fato de que eu não o veria no meu aniversário. Por
isso, senti uma alegria explosiva quando meu cérebro processou a informação de que era Edward parado à minha
frente, sorrindo para mim.
- Oi. – Eu falei
primeiro, não
sabendo de onde tinha tirado oxigênio para pronunciar alguma palavra – O que
está fazendo aqui?
- Você me pergunta
muito isso.
- Bom, é porque
você aparece em lugares onde eu não espero te encontrar.
Ele sorriu, mais
quieto do que costumava agir.
- É que eu não podia deixar de te ver hoje.
Ele lembrou. Ele lembrou! Eu jamais pensei que ele lembraria!
- Te trouxe duas
coisas. Um presente e uma lembrança de aniversário.
- Você não…
- Não ouse confundir os dois. – Ele me
interrompeu, em um tom de brincadeira, abrindo a porta do Volvo e entrando um
pouco para pegar um envelope, me entregando em seguida.
- Esse é o
presente.
- Eu não posso aceitar. – Falei
categoricamente.
- Você nem viu o
que é!
- Não importa, você não devia…
Ele levou sua mão até minha boca, tapando-a com
suavidade e me fazendo parar de falar.
- Abre.
Fiquei muito tempo
imóvel, encarando-o. Se eu fosse ficar agindo como uma idiota por qualquer
movimento que ele fizesse naquele dia, talvez fosse melhor voltar para dentro
de casa e não vê-lo
mais. Finalmente, saí do meu estado de inércia e abri o envelope.
Sobre minha mão, caíram vários marca-páginas, de
tamanhos e cores diferentes, alguns com desenhos e outros com citações. Não pude deixar de abrir um sorriso largo e sincero àquilo,
porque foi a coisa mais fofa e atenciosa que alguém já fez para mim.
A alegria que me
tomou foi maior do que deveria ser. Aquele presente era maravilhoso, não pelo que realmente era, mas pelo
que significava. Edward mostrou um cuidado e uma sensibilidade que eu não podia imaginar. Ele lembrava
disso também, e eu fiquei extremamente feliz em saber que ele lembrava desse
simples detalhe, porque estava relacionado a mim.
- Obrigada! Foi o
melhor presente!
- Não seja mentirosa. – Ele sorriu,
debochando do próprio presente.
- Não estou sendo! Eu adorei! Você não faz idéia!
- Ok, ok, vou
fingir que acredito. – Ele piscou para mim e eu senti meu rosto ferver. Devia
estar vermelha como uma pimenta, mas ele pareceu se divertir com isso, sorrindo
ainda quieto com minha vergonha. – Agora, a lembrança.
Novamente, Edward
se inclinou para dentro do Volvo e, quando voltou, carregava o maior buquê de
flores que eu já havia visto na vida. Era inclusive maior do que qualquer buquê
de filmes de romance ou coisa assim. Mas o que chamava mais atenção nele não era seu tamanho – ainda que fosse
assustador – mas a variedade de flores que estavam ali. Não era um simples buquê de rosas, ou
de margaridas, ou de qualquer flor específica, mas sim de vários tipos delas,
uma mais colorida e mais exótica que a outra.
- Você disse que não tinha uma favorita, então agora pode escolher. Foi tudo que
eu achei na floricultura. – Ele disse, me entregando o buquê gigantesco. Me
movimentei para pegá-lo puramente por instinto, porque meu choque não me permitia pensar.
- O vendedor me deu
alguns nomes, você pode associá-los depois.
Dizendo isso, tirou
do bolso traseiro um papel dobrado e, desdobrando-o, começou a lê-lo – Aí tem: Hortênsia,
azaléa, orquídea, dália, tulipa, gerânio, magnólia, rosa, begônia, camélia, jasmin, crisântemo, lírio, cravo, petúnia, copo-de-leite, violeta,
girassol… Bom, e outras. Você pode ler depois. Algumas são um pouco sensíveis à essa época
do ano, o vendedor as mantinha em certos compartimentos especiais, então acho que elas não vão durar muito. Faltam muitas, mas acredito que essas são as mais fáceis de achar por aí.
Edward dobrou
novamente o papel e colocou-o com cuidado dentro do buquê que eu segurava. Como
se esperasse por uma resposta minha, me encarou com as sobrancelhas um pouco
arqueadas, enquanto eu permanecia imóvel olhando para ele.
Eu só não tinha reação. Nenhuma. Porque depois de
receber um presente daqueles, não há como ter reação imediata. Por isso, fiquei em estado catatônico por mais algum tempo, e isso
deve ter incomodado um pouco Edward.
- Então, gostou?
Eu não conseguia falar, mas por algum
milagre consegui mover a cabeça um pouco, mostrando-lhe que sim, eu havia gostado. Eu
havia amado. Era a coisa mais linda e mais incrivelmente adorável que eu já
havia recebido.
- Que bom. – Ele
falou, abrindo um sorriso tímido, e eu quis me jogar em cima dele e beijá-lo em
todas as partes visíveis. E não visíveis também. Felizmente, eu ainda estava congelada no
mesmo lugar, incapaz de fazer qualquer coisa que não fosse encará-lo como uma menina
completamente apaixonada.
- Mas essa é a
lembrança. O
presente é mais importante.
Tudo era
importante, o presente e a lembrança. Tudo era incrivelmente lindo, e para falar a verdade, eu
tinha minhas convicções de
que se Edward tivesse me dado um chiclete de presente de aniversário, eu
adoraria de qualquer forma. Tudo o que ele havia me dado era importante e
maravilhoso pela sensibilidade, pelo significado e, obviamente, por ter sido ele quem me presenteou.
- Ahm… – Comecei,
me forçando a falar alguma coisa antes que
ele ficasse irritado e fosse embora pela minha falta de gratidão – O presente… deve ter sido meio…
caro.
Devia ter sido
extremamente caro. Um buquê de flores convencional já não era nada barato, o que me fazia
ter a certeza de que um buquê personalizado, principalmente um que carregava
flores sensíveis e menos comuns, devia ter custado muito dinheiro.
- Ah não. Os marca-páginas foram de graça. – Ele falou, sorrindo de novo e
fazendo uma cara que mais uma vez me lembrava de não confundir as coisas, mesmo ele
sabendo exatamente o que eu quis dizer – Já almoçou?
- Eu? – Testei
minha voz, agora tornando-a mais firme – Não, eu ia almoçar com as minhas amigas, mas elas… Elas te viram aqui?
- Eu entrei pela
porta da frente e dei de cara com Angela e Jéssica. Aí perguntei por você e
disse que estaria esperando aqui.
Bom, isso explicava
muita coisa. Mas ele não precisava saber disso.
- Eu estava saindo
pra almoçar
agora. – Falei.
- E onde estão elas?
- Acho que
desistiram. – Eu não tinha
uma desculpa boa o suficiente para inventar.
- Bom, então eu posso convidá-la para almoçar? Isso se você preferir uma
companhia, porque tem gente que prefere fazer essas coisas sozinho.
- Eu prefiro a sua
companhia. – Falei com um pouco mais de intensidade do que devia, o que fez com
que ele desviasse seu olhar do meu e olhasse para baixo, suspirando. – Eu… Eu
já volto. Vou guardar meus presentes.
- Vou estar
esperando.
Deixando essa frase
ecoar pela minha cabeça como música, rumei novamente para a porta dos fundos da
casa. Antes de entrar, me virei e notei que ele ainda me olhava.
- Obrigada. Mesmo.
Sem esperar uma
resposta dele, entrei rapidamente na cozinha e caminhei apressadamente para a
sala, querendo chegar o mais rápido possível no meu quarto para deixar os
presentes lá. Desejei intimamente que ninguém estivesse na sala para me ver
carregando todas aquelas flores. Obviamente, meu desejo não foi atendido, então me deparei com Jéssica, Angela e
Rosalie conversando animadamente. Quando elas notaram minha presença, olharam surpresas para mim, então reparei que Angela começava a fazer novamente a cara de
“vi-Papai-Noel” e corri antes que ela pudesse fazer ou falar – ou gritar –
qualquer coisa.
Peguei um jarro que
servia como enfeite em cima do móvel do meu quarto, enchi-o de água e coloquei
as flores cuidadosamente dentro, para que elas não morressem ou murchassem até que eu estivesse de volta.
Deixei também o envelope com os marca-páginas ao lado do buquê e desci
correndo. As três meninas continuavam no mesmo lugar, em cochichos animados
entre si, e quando voltei à sala apenas para ir em direção à cozinha e sair pelos fundos
outra vez, nem olhei para elas.
Saí pela porta e
Edward, notando minha presença, desencostou do carro e abriu a porta do carona para mim.
Entrei sem falar nada, ainda agindo mecanicamente, então ele fechou a porta e caminhou
para o seu lado, entrando no carro logo em seguida e dando a partida.
- Já descobriu qual
delas você gosta mais? – Começou, colocando o cinto e pondo o veículo em movimento.
- Não. Você fez com que eu amasse
todas. Vai ser impossível escolher uma agora.
- Não era essa a intenção. Você tem que escolher uma.
- Eu não consigo.
- Eu
particularmente acho que camélias combinam com você.
- Por quê?
- As pétalas são de uma perfeição quase hipnótica.
Ele respondeu isso
olhando para a rua, enquanto dirigia, como se tivesse falado algo sem importância. Bom, talvez para ele não fosse importante de qualquer
forma, mas eu me senti tão maravilhada com sua pequena explicação que novamente tive que me conter
para não pular em cima dele, certamente
provocando um acidente.
- Tem um
restaurante que eu conheço muito bom. Gosta de comida francesa?
Se eu gostava de
comida francesa? Como eu ia saber?
- Ahm…
- Esse restaurante
fica perto da minha casa, é especializado em comida francesa. E você não vai acreditar nos vinhos de lá.
Eu sequer sabia
diferenciar vinhos, e nunca havia provado nada da culinária francesa, mas sabia
o suficiente para ter certeza que tudo era bastante caro, principalmente em
restaurantes especializados. Principalmente em restaurantes que estavam
localizados no bairro em que Edward morava.
É claro que eu
tinha minhas economias. Eu conseguia uma quantidade de dinheiro razoável pelos
programas, e não era
de gastar tudo em shoppings – embora, vez ou outra, sair com Jéssica tenha
despertado meu consumismo, me fazendo gastar mais dinheiro do que devia em
coisas como lingeries e vestidos – mas eu sabia que se quisesse comer
minimamente bem em um restaurante francês, boa parte da minha poupança iria embora. Principalmente
porque eu estava faminta.
Além do mais, se
tinha algo que eu não
precisava agora era de alguma situação que me fizesse sentir incrivelmente inferior e deslocada
em relação a
Edward, então eu
preferia uma refeição que
exigisse, no máximo, três talheres, um prato e um copo, e não toda aquela confusão de louças, taças específicas e garfos de três
tamanhos diferentes.
- É que… Eu não estava pensando em comida
francesa hoje.
- E o que tinha em
mente? – Ele me perguntou, me espiando rapidamente enquanto voltava a prestar
atenção na rua.
- Uhm… McDonalds®?
- Quê? É seu
aniversário, você pretende comemorar em um Fast Food?
- Qual o problema?
- O problema é que
hoje é um dia especial, que exige ocasiões especiais. Além do mais, é a comemoração de mais um dia de vida, então eu não vou deixar que você chegue mais
perto da morte ajudando a entupir suas artérias com toda aquela gordura.
- Hoje é um dia
como outro qualquer. Todos os dias alguém faz aniversário, isso não
faz com que todos os dias sejam especiais.
- Você faz
aniversário só um dia, então hoje é especial.
Por isso, nós
vamos comemorar com comida francesa.
- Não
vamos!
- E por que não,
sua teimosa?
- Porque eu não
posso ficar gastando dinheiro com um almoço.
Eu não
devia me envergonhar por assumir isso a ele, afinal, era algo natural ter menos
dinheiro que Edward. Mas
eu me envergonhava.
- E quem disse que
você vai pagar?
- Eu estou dizendo!
- Se bem me lembro, eu te convidei. Então eu pago.
- Uma ova. Você já
gastou sabe-se lá quanto com as flores.
- Ei, quer me
deixar fazer isso direito?
- Não
vamos pra esse tal restaurante!
- Ok, façamos
um acordo. Nós vamos comer em outro restaurante, um menos extravagante – não
o McDonalds® – mas é por minha conta.
Pensei um pouco,
analisando a situação.
- Eu escolho o
lugar? – Perguntei, esperançosa.
- Claro que não.
Você não
conhece os
restaurantes bons do meu bairro, eu conheço,
- Mas todos os
lugares que você considera bons são caros!
- Prometo que vamos
em um lugar razoável. Você vai gostar.
Quinze minutos
depois, chegamos a um restaurante pequeno e simpático por fora, mas bem mais
luxuoso por dentro. Olhei para Edward com um olhar fuzilante enquanto um rapaz
nos guiava para uma mesa de dois lugares.
- Você mentiu pra
mim. – Falei, enquanto sentava à sua frente.
- Acredite, aqui é
bem mais barato.
Quando tive acesso
ao menu e aos preços, constatei que tudo era muito caro,
então
nem queria pensar nos preços de qualquer
coisa que fosse servida no restaurante que eu havia vetado.
- Se me permite… –
Ele começou, notando minha indecisão
e retirando com gentileza o menu de minhas mãos – Sugiro Magret de pato com risoto de laranja, e Poires
à Belle Hélêne para a sobremesa.
Fiquei um pouco
hipnotizada com o bico que ele fazia ao pronunciar as palavras com sotaque.
- Você tem tara por
comida francesa?
- Não
é tara, eu só gosto muito. – Ele
sorriu.
- Certo. Posso ver
uma coisa? – Perguntei, tentando tirar o menu de suas mãos.
- Quer parar de
querer controlar o preço? Você vai me
fazer parecer esnobe, mas acredite quando eu digo que posso pagar. Aliás,
poderia comprar esse restaurante inteiro. Portanto, pare de criar caso.
Suspirei, assentindo
de má vontade.
Edward chamou o garçom
e passou nossos pedidos. Pedi um refrigerante e recebi protestos dele, que
queria escolher um vinho de algum ano especial, mas logo aceitou minha decisão
quando eu disse
que só beberia se ele me acompanhasse, e como ele estava dirigindo, isso não
seria possível.
Quando o pedido
chegou à nossa mesa, provei o prato exótico e, como eu imaginava, a sugestão
de Edward havia sido perfeita. Eu estava morrendo de fome, mas mesmo assim me contive para não
parecer uma troglodita faminta na frente dele, e mastiguei mais devagar do que
costumava para conseguir terminar minha refeição depois dele. A
sobremesa estava igualmente boa, e quando finalmente meu prato havia esvaziado,
me senti satisfeita.
- Então?
O que acha do meu gosto?
Tentei responder de
imediato, sem pensar no duplo sentido que aquela pergunta tinha.
- Muito bom. De
agora em diante posso aceitar suas sugestões sem pestanejar.
Devo levar em consideração o fato de você ser um amante da culinária.
- Talvez. – Ele
disse, sorrindo – Você cozinha?
- Não
agora. Cozinhava antigamente, mas isso tem muito tempo. E não
eram coisas assim, exóticas ou interessantes. Eu fazia muito do básico.
- Alguma
especialidade?
- Bom… Não
é nada demais, mas minha mãe
me ensinou um truque para fazer um bolo de cenoura com cobertura de chocolate
ficar ainda mais gostoso. Ela sempre elogiava quando eu fazia, mas isso não
quer dizer muita coisa.
- É meu bolo
favorito. – Edward falou de uma forma simples, sorrindo – Vou provar sua
receita algum dia?
Encarei-o por algum
tempo, apenas admirando-o, e eu não sabia se havia
pronunciado a resposta em voz alta ou se estava só divagando.
Se depender de mim, você pode
provar minha receita todos os dias.
Edward me encarava
de volta com um sorriso tímido nos lábios, mas algo dentro dele pareceu ter
sido acionado, fazendo com que ele ficasse repentinamente sério e desviasse seu
olhar do meu. Não era a primeira vez que ele fazia
isso, e eu me perguntava o motivo.
Olhando para os
lados, ele chamou o garçom e pagou o almoço,
não
me permitindo saber quanto tinha sido. Saímos do lugar rumo ao Volvo prateado
do outro lado da calçada.
- Bom, eu tenho que
ir. Vou levá-la em casa. – Disse, abrindo a porta do carro para mim.
- Não…
Só vou pra casa de noite, mas se você me deixar por perto eu agradeço.
– Sentei, mas ele continuou segurando a porta aberta.
- E vai ficar
fazendo o que até lá? São 13:30h.
- Vou ficar por aí.
– Respondi com sinceridade. Eu não sabia para onde ia ou o que faria durante todo
aquele tempo, mas eu quase nunca sabia desses detalhes quando saía da Casa de
Tanya para ficar sozinha e pensar, então já estava
acostumada a improvisar.
Edward outra vez
desviou o olhar, pensando por algum tempo enquanto olhava em volta
desinteressado nas pessoas que caminhavam. Finalmente, fechou minha porta e
entrou no carro, dando novamente a partida.
- Você vai
trabalhar? – Comecei.
- Não.
Tirei o dia de folga. – Ele respondeu, sério, enquanto encarava a rua.
- Por quê? Não
estava se sentindo bem?
- Por que é o seu
aniversário. – Ele falou depois de algum tempo em silêncio, provavelmente
ponderando as palavras e se perguntando se deveria ou não
falar aquilo.
- Olha, não
precisa se preocupar, eu não confundo as
coisas.
Edward me olhou,
interrogativo, então eu continuei.
- Parece que você
está com medo que eu pense que as suas atitudes sejam mais do que realmente são.
Não
vou confundir as coisas, então não
precisa medir suas palavras. Não se preocupe, eu
sei… Bom, eu sei o que não é.
- Você sabe? – Ele
me olhou, agora por um bom tempo.
- Sei.
Eu queria
tranqüilizá-lo, porque algumas de suas atitudes mostravam claramente o quão
desconfortável ele estava. A idéia me veio de repente, mas foi certeira, e eu não
sei por que não havia pensado nisso antes. Foi por isso que ele fugiu de mim
na última noite que dormimos juntos, e era por isso que ele se afastava e
desviava nossos olhares toda vez que uma ligação era feita entre
eles. Ele temia que eu estivesse entendendo errado do que se tratava seu instinto protetor,
que eu achasse que ele estava interessado em mim.
Eu poderia deixar
claro que aquela idéia era muito absurda para que qualquer um acreditasse, mas
ele pareceu entender.
- Que bom que você sabe.
Não
entendi a ênfase que ele
empregou no “você”, mas não quis aborrecê-lo.
Ele parecia um pouco preocupado, talvez com algo do trabalho. Virei para a
janela e observei a paisagem pela primeira vez.
- Nunca estive
aqui. É algum atalho?
- Não,
é um caminho. Vou te levar em um lugar. – Ele respondeu, ainda sério, olhando para frente.
- Mas você não
disse que tinha que ir?
- Disse.
Ele não
me deu mais explicações, e eu não
perguntei. Estava bastante claro que ele não queria conversar,
por isso ficamos em silêncio por aproximadamente meia hora durante todo o caminho que
levava ao lugar misterioso.
Quando finalmente
chegamos, Edward estacionou o carro em algum tipo de estacionamento onde alguns
outros carros também estavam. Saí e notei que, em volta, não
havia muito mais para ser visto: Um estacionamento razoavelmente grande e, à nossa frente, um
espaço
amplo de grama cortada que sumia em um tipo de precipício. Devia ter mais
coisas depois daquela descida, mas eu não podia ver.
- Vamos? – Ele
perguntou, se dirigindo exatamente para o declive.
Parei de analisar o
lugar e o segui, então algum tempo
depois pegamos um tipo de atalho em que podíamos caminhar até aquela descida.
Quando finalmente chegamos um pouco abaixo, notei onde Edward havia me trazido.
O lugar era
praticamente um mirante de toda a cidade que se expandia lá embaixo. Eu agora
estava em um campo muito aberto coberto por grama, onde vários grupos de
pessoas admiravam a paisagem e conversavam entre si. O lugar não
estava cheio, mesmo porque para enchê-lo, muitas pessoas seriam necessárias. Ao invés disso, os grupos
sentavam-se em toalhas ou no chão mesmo, afastados
por vários metros de distância uns dos
outros. Famílias, casais e amigos, ali era um lugar extremamente relaxante, que
dava uma visão privilegiada do muito que havia para
ver daquele lugar.
Demorei um pouco
para perceber que Edward havia sentado na grama, exatamente ao meu lado,
apoiando o corpo nos braços e deixando-se
queimar pelo mormaço muito suave, de olhos fechados.
Aproveitei seu momento de meditação para admirá-lo um pouco, ainda em pé, então
sentei ao seu lado, de pernas cruzadas, olhando a paisagem.
- O que achou?
- Lindo.
- Sempre venho aqui
quando estou preocupado com alguma coisa ou quando quero pensar. É um ótimo
lugar pra fazer isso.
- Então
você sempre vem sozinho?
- Sim. Você é a
primeira pessoa que eu trago aqui.
Fitei-o por algum
tempo, então virei novamente para a imensidão
abaixo de nós, repleta de casas, ruas e prédios altos.
- É mesmo lindo.
- Você precisa ver
como fica de noite. É mágico.
- Eu imagino.
As nuvens que antes
pareciam se decidir em cobrir ou não o sol agora
bloqueavam completamente os raios solares, deixando-nos com um clima nublado e
agradável. Agradeci intimamente por isso, já que eu não
havia trazido filtro solar. Me permiti relaxar e deitei de costas na grama, fechando os
olhos e deixando o vento fresco tocar minha pele de uma forma suave, bagunçando
um pouco os meu cabelos.
Era incrível.
Aquele lugar trazia uma sensação de paz forte
demais para não se deixar levar. Tudo era
convidativo, e eu
tinha certeza que a momentânea felicidade que saltitava
como pipoca dentro de mim tinha também a ver com a presença
do homem que permanecia ao meu lado.
Abri os olhos e me
assustei com ele me encarando intensamente.
- Que foi?
Ele balançou
a cabeça,
como se dissesse que
não
era nada. Edward ainda estava sério, mas eu queria que ele também relaxasse,
assim como eu.
- Pode falar… Eu já
disse que você não precisa medir as palavras comigo.
Ele continuava me
encarando, como se dentro dele milhões de pensamentos borbulhassem e ele tentasse
organizá-los.
- Não
vai me dizer?
- Você é muito
linda.
Meu coração
deu um solavanco sem querer, e automaticamente perdi a respiração.
- Brigada… – Falei,
depois de algum tempo tentando puxar oxigênio para dentro e finalmente
conseguindo.
Ele suspirou, então
se deitou ao meu lado na mesma posição que a minha,
encarando o céu nublado.
Ficamos ali por
muito tempo. Conversamos sobre bobeiras e retomamos nosso jogo de perguntas e
respostas, tentando conhecer mais um do outro. Descobri que ele odiava ostras,
que não
sabia assoviar e que queria ter duas filhas e um filho. Contei a ele que eu
gostava muito de gatos, que meu sorvete preferido era flocos e que não
gostava de filmes de terror, porque morria de medo de escuro. Entramos em discussões
sobre assuntos nada importantes, onde ele tentava me apresentar provas
concretas de que a galinha veio antes do ovo e onde nossas idéias divergiam
sobre a realidade paralela formada pela viagem de Marty McFly e do Dr. Brown em
De Volta Para o
Futuro II.
Durante todo esse
tempo, senti a tensão de Edward diminuindo gradativamente,
mas nunca desaparecendo por completo. Ele ainda mantinha uma barreira invisível
mas muito concreta entre nós, não me permitindo
chegar muito perto dele e não se permitindo ser ele mesmo.
Quando dei por mim,
já havia começado a escurecer. Olhei o relógio que
marcava um pouco depois das 18h, então me mantive
sentada e prestei atenção no lento ligar de
luzes das casas, prédios e avenidas lá embaixo. Em pouco tempo, a cidade parecia um emaranhado de
pequenas lâmpadas coloridas.
Edward estava
certo. Era mágico.
Contive a vontade
adolescente que me tomou de pegar sua mão, repousada no chão
ao meu lado, e ficar em silêncio enquanto o céu escurecia completamente.
Contive essa vontade
porque eu sabia que isso seria passar dos limites, e ele certamente se
afastaria e voltaria a adotar a postura tensa do início daquela tarde.
Eu sabia que ele não
tinha nenhum interesse real em mim, e se eu quisesse que aquela relação
funcionasse, não
podia deixá-lo saber que eu estava
completamente apaixonada por ele. Porque essa era a verdade.
Eu estava
apaixonada. Completamente apaixonada. E tudo seria lindo se isso fosse
correspondido. E tudo seria perfeito
se eu não fosse o que eu era.
- Esqueci de
avisar, nessa época do ano a noite fica um pouco insuportável aqui.
Foi só quando ele
falou que eu me dei conta de que estávamos cercados por mosquitos que insistiam
em zumbir nos nossos ouvidos. Levantei-me ao mesmo tempo que ele, o que
indicava que nosso dia havia chegado ao fim.
O dia mais lindo de
todos.
Entramos no carro e
Edward dirigiu calmamente de volta pela estrada cheia de curvas. A volta foi
rápida demais, então em pouco tempo já estávamos chegando
à rua estreita e deserta que dava para os fundos da Casa de Tanya.
Quando chegamos,
saí do carro logo depois dele e esperei. Esperei por várias coisas, embora eu
sabia que era melhor não criar
expectativas. Mas era tarde, elas já estavam criadas.
Esperei por um abraço
de feliz aniversário. Esperei
pela notícia de que ele pagaria pela minha semana outra vez. Esperei uma
despedida ideal. Mas eu sabia que nada disso aconteceria.
- Ei… – Comecei,
tentando colocar um tom casual em minha voz – Você não
me deu os parabéns.
Imediatamente após
dizer essas palavras, me arrependi, temendo que ele as tomasse como ingratidão.
De fato, eu não precisava de um “Feliz Aniversário”
vindo dele, porque ele havia me proporcionado o melhor aniversário da minha
vida.
Mas ele não
ficou chateado.
- É verdade. – E
dizendo isso, me olhou profundamente. Um olhar tão intenso que eu
podia sentir as ondas de calor e eletricidade que se chocavam entre nós. Fiquei
presa naquele olhar por um tempo que eu não poderia medir, e
então
senti um toque em minha mão direita, caída ao
lado do meu
corpo.
Sem tirar seus olhos
dos meus, Edward trouxe minha mão para cima e
deixou um beijo suave e demorado ali. Fiz uma força sobre-humana para
que meu corpo não tremesse como gelatina, então
ele retirou os lábios de minha pele e continuou segurando minha mão
na dele.
- Feliz aniversário,
Bella. Que muitos ainda estejam por vir.
- B-brigada.
- Espero que tenha
se divertido hoje.
Sem esperar por uma
resposta minha, ele soltou gentilmente minha mão e se virou,
caminhando de volta para o carro, e dando a partida, foi embora.
Fiquei imóvel no
mesmo lugar, olhando para o ponto no final da rua que o Volvo havia
desaparecido, sentindo um leve formigamento no lugar onde ele havia deixado
aquele beijo. Finalmente saindo de meus devaneios, entrei pelos fundo e fiquei
aliviada em ver que a cozinha estava deserta. Passei pela sala onde já havia
algumas meninas, mas não dei importância
a nenhuma delas. Fui direto para o quarto e me tranquei lá.
Aquele tinha sido o
melhor dia da minha vida. O fato de ser meu aniversário era apenas um detalhe. Ele passou o dia inteiro comigo. Ele escolheu pela minha companhia, embora não
estivesse totalmente confortável com isso. Ele havia me dado um presente lindo, que agora chamava toda a
atenção
do meu quarto.
Sem pensar, fui até
o vaso e tirei, do meio das flores, o papel com a lista das diversas espécies
que ali estavam. Deitei de bruços na cama e li uma
por uma, tentando identificá-las. Depois de muito tempo nesse jogo, finalmente
dobrei novamente o papel, pronta para guardá-lo em uma das gavetas e estudá-lo depois,
mas ao encarar uma das quatro partes do verso do papel, fui pega de surpresa
por algo escrito a lápis.
A letra, embora
parecesse estar ali por rascunho, era bonita e imponente, diferente da lista
que trazia os nomes das flores, então imediatamente entendi
que aquela caligrafia só poderia ser de Edward.
Desdobrei novamente
o papel, para poder ler a frase inteira.
Era uma citação.
Uma citação que não fazia sentido
estar ali.
Não
fazia sentido…
“Um
covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos.” Mahatma Gandhi

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